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Lendas, Iara

Postado por Vanessa Rodriguesem 15 de Novembro de 2009

iaralenda

A Iara é uma dos mitos mais conhecidos da região amazónica. É uma linda mulher morena, de cabelos negros e olhos castanhos. Exerce grande fascínio nos homens, pois aqueles que a vêem banhar-se nos rios não conseguem resistir aos seus encantos e atiram-se nas águas. Aqueles que se atiram ao rio, para chegar perto de Iara, nem sempre voltam vivos. Os que sobrevivem, voltam assombrados, falando em castelos, séquitos e cortes de encantados.

É preciso muita “reza e pajelança” para tirá-lo do encantamento. Alguns descrevem Iara como tendo uma cintilante estrela na testa, que funciona como chamariz que atrai e hipnotiza os homens.

Acredita-se também que ela tem forma de peixe na parte inferior (uma sereia?), outros dizem que é apenas um vestido, ou uma espécie de saia, que ela veste por vaidade e para dar a ilusão de ser metade mulher/ metade peixe. Em certos locais, dizem que Iara é um boto-fêmea.

Ela também encanta os homens e leva-os para o fundo do rio. Em outros lugares dizem ser a própria boiúna (cobra grande).

Fonte: Portal da Amazônia

Nota de Sinais

Postado por Vanessa Rodriguesem 28 de Setembro de 2009

Devido ao espaço consagrado a cobrir as eleições legislativas em Portugal, esta semana o texto sobre a Amazónia não foi publicado no Diário de Notícias. Beijocas e abraços apertados. Até já…

Tarântulas, duas luas e priprioca de Cotijuba

Postado por Vanessa Rodriguesem 8 de Setembro de 2009

cotijuba

Publicado no Diário de Notícias a 6 Set 2009

Delso insiste que não. Aquele bicho preto peludo do tamanho da mão de uma criança não é uma tarântula. “É uma aranha comum aqui da ilha de Cotijuba e a picada dela dá comichão.” O problema é que por onde ela passa “deixa um rasto que provoca uma alergia que se espalha pelo corpo”, explica melhor Delso Conceição, que nasceu na ilha, a 50 minutos de barco de Belém, no Brasil. O miúdo de pele morena, que espreitava pela janela, também não se incomodou quando a grande aranha começou a trepar as paredes de madeira da casa onde mora. Ficou a contemplá-la como um brinquedo.

“Pior do que a picada dela”, lembra Delso, “seria a de uma cobra”. “Precisaríamos de um antídoto, poucos minutos depois. Começamos a sentir sede, mas não podemos beber água, senão su- focamos.” Se isso acontecesse “não teríamos tempo”, por isso, “é melhor olhar bem por onde pisamos”. No meio de uma floresta densa como esta, a da ilha de Cotijuba – que em tupi, língua indígena, significa trilha dourada – com vegetação alta, ramos indisciplinados, folhas e lama secas, por onde o rio Guamá, ao fim da tarde, a vem humedecer, o exercício é apenas feito com destreza por quem lhe conhece os segredos.

Não para quem pisa, por aqui, pela primeira vez.

Dona Célia Silva ri-se do episódio. É ela que vai emprestar a rede para dormir. Diz que, nessa noite, haverá duas luas. E só ela as conseguiu ver, enquanto os hóspedes da casa dormiam na rede. “Eram duas bolas cor-de-laranja forte no céu”, conta. E agora quer provar que, afinal, a aranha peluda que parece “tarântula” é “tão inofensiva” que ela até toma conta de uma, “que se esconde no telhado da casa há anos”.

Célia, 59 anos, é uma das mulheres associadas ao Movimento de Mulheres das Ilhas de Belém (MMIB). “Desde que a associação foi formada criaram-se várias oportunidades de renda complementar para a comunidade”, diz, contando que graças ao MMIB sabe, hoje, “fazer sabão, água sanitária, aproveitar sementes e desidratar folhas” para fazer biojóias, bijutaria de produtos da natureza.

“Nós temos toda a matéria-prima e precisamos saber a utilizá-la. Há ilhas à volta que não têm a oportunidade que estamos a ter”, diz. O MMIB tem o apoio do Instituto Peabiru, ONG voltada para a biodiversidade que, além dos cursos, ajuda na realização de projectos sócio-educativos; e da empresa de cosméticos Natura, que recebe anualmente da comunidade a priprioca, planta aromática típica da Amazónia.

Segundo Adriana Gomes, coordenadora administrativa do MMIB, “o cultivo da priprioca é uma importante renda complementar de algumas famílias da comunidade e que veio valorizar o trabalho de extracção sustentável”.

Depois fala em “emancipação”. É que através das “actividades do MMIB”, como de empreendedorismo, e cursos de novas tecnologias, pelo projecto “Oi, Guia-me Belém”, já conseguiram “capacitar várias pessoas” da comunidade. “Isso ajudou-nos muito, diminuindo as diferenças em relação às oportunidades de uma grande cidade. Há até algumas mulheres que se valorizaram mais, percebendo que podiam ter uma actividade profissional”, além da de doméstica, “pois a comunidade é, ainda, muito machista”, diz Adriana Gomes.

Culinária da Amazónia, influência indígena

Postado por Vanessa Rodriguesem 3 de Setembro de 2009

sinaisdagente

Tacacá, tapioca, cupuaçu, buriti, muriti, bacaba, tucupi, maniçoba, jambu, pimenta de cheiro, pirarucu. Assim lidas de um fôlego só, as palavras parecem demasiado estranhas aos ouvidos, aos olhos e ao paladar. Depois entranham-se. São ingredientes de uma rica e antiga culinária com influência indígena: a paraense, a amazónica, que vai ainda buscar influências ao rio e às ervas. Quem circula pelo mercado Ver-o-Peso, em Belém, no Brasil, consegue ver e sentir a riqueza desta variedade gastronómica. Frutas, legumes, temperos, farinhas, peixes, carnes; saberes.

Há sacos de tapioca a transbordar, frutos coloridos a abarrotar as barracas de madeira, garrafas de litro com líquido amarelo, castanho; saquinhos com pós vermelhos.

Um desses líquidos “estranhos”, com rolhas feitas de espigas de milho, cujas reentrâncias permitem controlar as pingas que caem no prato, é o tucupi: um caldo feito do líquido da mandioca amarela, que se obtém a partir da fermentação do sumo e é usado em vários pratos, como por exemplo para “temperar” o pato, mas “também a galinha e o porco”, explica Luísa Vilhena, 56 anos e moradora em Boa Vista do Acará, a 50 minutos de barco de Belém.

A maioria dos lotes de tucupi que servem a cidade de Belém e, por isso, a gastronomia da região, vêm de comunidades insulares dos arredores.

Já o tacacá é um tucupi que leva mandioca cozida, camarão e jambu – uma espécie de folha que provoca um ligeiro adormecimento da língua, com sensação de frescura – temperado com a pimenta-de-cheiro. Por si, o tacacá, enquanto caldo encorpado é capaz de substituir uma refeição. Há quem o use como bebida, também.

A variedade de peixes, marcada pela diversidade de grandes rios, como o Amazonas, o maior do mundo, onde vivem mais de duas mil espécies, é uma fonte de inspiração para o cardápio. Caldeirada de tambaqui, tucunaré e pirarucu, chamado de “bacalhau brasileiro” – devido à técnica de salgar o peixe, igual à do bacalhau – são apenas parte de uma lista infindável. O Pirarucu, por exemplo, chega a pesar 100 quilos e a medir dois metros de comprimento, com uma carne branca e macia, comida grelhada, desfiada ou cozida.

Depois, vários pratos da Amazónia são acompanhadas por pirão – massa de farinha de mandioca cozida num caldo de peixe, ou no tucupi.

As frutas da Amazónia têm também uma personalidade especial, muitas das quais são até desconhecidas noutras regiões do Brasil.

Por exemplo:

Bacuri – metade flor e metade fruto, no início do século passado foi adoptado pelo barão do Rio Branco, famoso diplomata brasileiro, como sobremesa dos grandes banquetes oficiais do Palácio Itamaraty. Ele deve ser colhido e comido em 24 horas, pois perde o frescor da polpa, azeda e apodrece.  É possível comê-lo fresco, mas pode ser servido como doce em calda, como gelado, cremes e pudins.

Piquiá – oleoso, o piquiá costuma ser cozido para comer no intervalo das refeições, mas muita gente faz dele refeição.  Do piquiá também se faz o licor de piqui, uma bebida considerada fina;

Açaí – é o fruto mais famoso, consumido e conhecido da Amazónia. O Açaí é um pequenos bagos, altamente perecível, colhido em pequenas palmeiras pelos peconheiros que colocam a peconha nos pés (pequenos tecidos que os une) para subir pelos finos troncos e retirar os frutos, quer seja abanando-os, que seja arrancando de uma vez só os galhos fortes. O Pará e o Amapá são os estados onde há maior produção da fruta.  Ali, é costume consumir a pasta do açaí, que tem um gosto levemente ácido, com peixe, arroz, e outros pratos quentes nas refeições. Já fora da Amazónia, essa fruta rica em nutrientes e calorias, costuma ser servida como uma sobremesa, misturada com banana e cereais.  Hoje, o açaí pode ser encontrado em cidades de todo o Brasil, e tem fama mundial, sendo exportado para vários países, como a França e os Estados Unidos.

Pupunha – espécie de coquinho verde, bastante oleoso, que é fervido com sal para ficar vermelho ou amarelo.  Costuma-se servir a pupunha salgada, mas também pode ser adoçada, para ser servida como sobremesa.

Castanha-do-pará – Também conhecida como castanha-do-Brasil, ela pode ser comida ao natural ou ser usada em bolos, bombons e doces.  Produto típico da região, essa oleaginosa é exportada para o mundo inteiro.

Receitas típicas do Pará

1. Pato no Tucupi

ingredientes

2 litros de tucupi
3 dentes de alho espremidos
2 maços de folhas de jambu
1 cebola picada
1 pato limpo cortado em pedaços
Sal e pimenta-do-reino a gosto

Preparação
Tempere o pato com o alho, a cebola, sal e pimenta-do-reino. Aqueça o forno em temperatura média. Coloque o pato numa as sadeira com um pouco de óleo e leve ao forno até dourar. Numa panela, coloque o tucupi e os pedaços de pato assado. Leve ao fogo alto até ferver. Abaixe o fogo e cozinhe até ficar macio. Acrescente mais tucupi, se necessário. Junte as folhas de jambu e cozinhe até que os talos fiquem macios. Sirva com farinha de mandioca.

2. Maniçoba

ingredientes

3 kg de maniva moída (folha da mandioca-brava)
1/2 kg de toucinho
1/2 kg de carne-seca
1/2 kg de lingüiça portuguesa
1/2 kg de paio
1/2 kg de lombo de porco
1/2 kg de orelha de porco
1/2 kg de rabo de porco
Alho e pimenta-de-cheiro a gosto

Preparação

Comece quatro dias antes de servir. No primeiro dia, coloque a maniva moída numa panela grande com bastante água pela manhã e deixe ferver até anoitecer, em fogo brando, sem deixar a água secar.
No segundo dia, acrescente o toucinho e deixe ferver novamente pelo dia inteiro.
No terceiro dia, escalde todas as carnes e coloque-as na panela da maniva. Ferva de novo pelo dia inteiro, mexendo às vezes.
No quarto dia, acrescente o alho espremido e a pimenta. Deixe ferver por mais 6 horas, mexendo às vezes.
Sirva com arroz branco e farinha de mandioca.

3. Bolo de Tapioca

ingredientes

½ quilo de massa para tapioca
1 coco grande ralado
2 ½ xícaras de açúcar
1 litro leite
1 lata leite condensado

Preparação

Enquanto o leite ferve, os outros ingredientes devem ser misturados um recipiente. Depois, é só dissolvê-los no leite e colocar a mistura numa forma untada com um pouco de leite condensado e côco. O diferencial desta receita é que a partir deste momento é só esperar esfriar e desenformar.

4. Pudim de Açaí

ingredientes

1 xícara(s) (chá) de açúcar

1/2 xícara(s) (chá) de água Pudim

1 lata(s) de leite condensado

250 gr de açaí

4 unidade(s) de ovo

1 colher(es) (chá) de suco de limão

Preparação

Numa panela de fundo largo, coloque o açúcar. Leve ao fogo baixo, deixando derreter suavemente. Quando estiver bem dourado, junte a água a ferver e mexa com uma colher de pau. Deixe ferver até dissolver os torrões de açúcar. Forre uma forma com furo central (19 cm de diâmetro) com esta calda.

Numa tigela ou no liquidificador, misture o leite condensado, o açaí e os ovos até que a mistura fique homogénea. Não há necessidade de bater muito.
Despeje na forma caramelizada. Cubra-a com papel de alumínio e coloque em banho-maria, em forno médio (180ºC), por cerca de 1 hora e 30 minutos.
Depois de frio, leve ao congelador por 6 horas. Desenforma e sirva.

Saiba como se faz o bolo que nem precisa ir ao forno.
INGREDIENTES:
½ quilo de massa para tapioca
1 coco grande ralado
2 ½ xícaras de açúcar
1 litro leite
1 lata leite condensado

MODO DE PREPARO:
Enquanto o leite ferve, os outros ingredientes devem ser misturados em um recipiente. Depois, é só dissolvê-los no leite e colocar a mistura em uma forma untada com um pouco de leite condensado e coco. O diferencial desta receita é que a partir deste momento é só esperar esfriar e desinformar.

Biopirataria

Postado por Vanessa Rodriguesem 30 de Agosto de 2009


santarosa

Publicado no Diário de Notícias, 30 de Agosto 2009

Dona Ambrósia sabe tudo sobre as plantas medicinais do mato. Tem 99 anos. Só foi ao médico pela primeira vez há duas semanas: doía-lhe o peito.

Dona Ambrósia foi pela primeira vez ao médico há duas semanas. Mora na Ilha da Santa Rosa, em Ananindeua, cidade no estado do Pará, norte do Brasil. Sentiu uma dor no peito e estranhou.

“A minha filha achou melhor ir ao doutor ver o que era, porque na minha idade ela não quer correr o risco de esperar pelo remédio aqui do mato.”

Esta mulher de traços magros, vividos, 99 anos, conhece todas as plantas da comunidade. “Se tenho dor de estômago vou colher uma unha-de-gato ou o puxuri e preparo-as. Problemas de pulmão trato com leite de amapá. E a barba de paca é boa quando há sangue na urina.” Já a “casca de cajuí”, conta, “é boa para acabar com as úlceras”. E o chá de camembeca combate a diarreia, dores no fígado e hemorróidas.

“Mas só as pessoas mais idosas conhecem bem as plantas”, conta Gilberto Sousa da comunidade Igarapé Grande, vizinho da Ilha de Santa Rosa, lamentando que esses saberes se estão a perder na região.

“Às vezes apareciam aqui algumas pessoas interessadas em conhecer as plantas. Elas conheciam-nas bem, até melhor do que eu, e arrancavam algumas para levar. Só depois começámos a perceber que estavam a roubar os nossos remédios”, denuncia Gilberto.

Biopirataria? “Na maioria dos casos sim”, explica Filipe Bastos da secretaria de meio ambiente de Ananindeua. “Noutras situações é para pesquisa, mas a biopirataria ainda é um grande problema na Amazónia”, esclarece Gilberto Sousa.

D. Ambrósia, filha de Santa Rosa, a ilha de Bacabas

Postado por Vanessa Rodriguesem 30 de Agosto de 2009

donambrosia

Publicado no Diário de Notícias, 30 de Agosto 2009

O som do motor do barco parece que vai estourar a qualquer momento. Ronco contínuo, ensurdecedor. É melodia de progresso em águas amazónicas. Transporte “abençoado”. Se o desligarem, só se ouve o ondular das pequenas ondas no rio Maguari, em Ananindeua, no norte do Brasil. É a terceira cidade mais populosa da Amazónia. “E uma das mais pobres”, diz Filipe Bastos, secretário do Meio Ambiente da região. Ao redor, as pequenas ilhas parecem pequenos puzzles verdes. Vêem-se redomas de igarapés, esses braços estreitos de rios da bacia amazónica, labirínticos. As raízes grossas e espessas estão secas das margens. “A maré está baixa. É a melhor hora para navegar”, comenta Gilberto Sousa, o Gil da comunidade de Igarapé Grande, em Ananindeua. E há águas de mar Atlântico que também se desviam para aqui, trazendo o camarão. Há caminhos de ribeiros, monótonos, pintados pela natureza em irmandade gémea. Gil, diz que não, ri-se, assegura que nenhum se repete. “Conheço-os desde pequeno, e sei dizer onde eles nos levam.” Aponta para um: “Aquele vai para onde eu moro, mas este barco é muito grande para passar.” É ele que vai ao leme. Pele morena, mãos enrugadas. Sabe que no próximo emaranhado de raízes tem de contornar à esquerda para chegar à ilha de Sta. Rosa, onde fica a comunidade do Cajueiro.

“Foi nestes ribeiros que se esconderam os Cabanos [no século XIX] e ainda hoje encontramos túneis com moedas antigas e louças daquele tempo”, conta. Refere-se à revolta de negros, índios e mestiços contra a elite política no Pará, por causa da pobreza que carcomia as populações ribeirinhas, depois da independência do Brasil, em 1822. “O meu bisavô era português, apaixonou-se por uma cearense, casou-se, teve onze filhos e depois nunca mais souberam dele.” Uma hora depois, saberemos que “Bacaba é um fruto maior que o Açaí”. Quem ensina é Dona Ambrósia, 99 anos, descalça. Olhos azul celeste, mãos finas, cavadas pelo tempo e que, recorrentemente, encostam à boca depois da gargalhada. “Esta casa tem mais de cem anos, já cá estava quando eu nasci. Mexi muita farinha. Mas já não tenho mais força nos braços”, recorda a quase-centenária, enquanto ajeita a lenha por baixo do forno. Hoje, só ela e a filha ainda preservam, na comunidade, a tradição de preparar a farinha de mandioca. Distribuem pelas dez famílias da ilha. É a mesma que vamos comer daqui a pouco, na casa dela, para misturar com o açaí, o fruto cor-de-vinho colhido de manhã cedo, amassado pelas mãos centenárias – e que faz inchar o estômago – acompanhado de camarões que o filho apanhou há instantes. “Quando era mais nova subia à palmeira para colher o açaí”, conta. Depois levava esse fruto do tamanho de uvas americanas no barco, para vender na Ilha do Mosqueiro. “Demorava quatro horas a chegar, remando. Hoje já há barcos a motor. Naquele tempo era mais difícil”. E naquele tempo havia lendas. “A do homem galanteador de chapéu que encantava as moças e ia embora antes de a festa acabar. Dizem que era um boto”, conta referindo-se ao parente do golfinho da Amazónia. E apressa-se a contar a lenda da cobra que ficou na barriga da mãe do sogro depois que ele nasceu. “Chamaram o pajé, o chefe dos índios, quando a região ainda tinha índios, e ele fez umas rezas, uns cânticos. Só sei que ela ficou melhor.”

Cotijuba, vai-se dormir…

Postado por Vanessa Rodriguesem 30 de Agosto de 2009

pordosolcotijuba

Sabemos que as viagens nos ludibriam os olhos. Mas mesmo assim, o pôr-do-sol que prometi ver em cada canto, sei-o, tem linguagens diferentes. Este não me respondeu à pergunta. Disse-me que talvez o próximo também se esquivasse a responder… Mas a paz depois foi esta…na Ilha de Cotijuba, nos arredores de Belém, das dezenas que encontramos e nos fazem esquecer que o burburinho urbano e explosão demográfica, também, ali andam a fazer estragos na Amazónia, já perto do Atlântico, o oceano.

sinais…

Postado por Vanessa Rodriguesem 18 de Agosto de 2009

iconsinaisO mundo começa aqui. Sem coordenadas reais. Com bússolas que sentem. Azimutes desalinhados, que se seguem pelo som do vento, o gosto das águas, e o abraço das gentes. O mundo começa aqui num grão de areia. Numa viagem de mil viagens. Num alfabeto reinventado: com ar nas veias para levitar. Com rasgos nos olhos para ver mais perto. Almas, cheiros, paladares que se entranham nos poros e reentrâncias carnais como lente raio x. Não existe?

É aqui onde começa o mundo. Como oxigénio. Fotossíntese. Como raiz entranhada que esventra a terra. Desejo carnal que se enrola com a vida, sem medo de se trair. Trair é enterrar os pés e esperar que o mundo venha. Antes ser pó, que sonho por fazer.

O mundo não existe. Ele é. Obra de arte como as viagens que se pintam em nós… Quantas pinceladas tem uma viagem na alma? As interiores sem latitudes. Quantas mãos amassam a terra para ser? Quantos lugares que se impregnam em nós, antes de saber que existem? Sabem a açúcar em ponto de rebuçado. Adrenalina. Cabelos brancos que escondem histórias. Bilhetes deixados. Mesas velhas onde se roçam os copos. Acasos desencontrados.

O mundo é casa sem-tecto por onde se vê o pôr-do-sol. Por onde se reinventam as manhãs. Vidas que não passamos por um instante que o segundo mudou. Vivências. Rugas. Papel seda que se enrola à mão, macio. E se desfaz em combustão lenta. Fogo? Terra? Ar? Água em queda livre que se escorre e descobre em texturas com gotas microscópicas. Sabias que as gotas a pele não absorve? Sentem intensamente para roubar o que não interessa.

O mundo começa com lágrimas em busca de oxigénio. Sustem a respiração – o líquido ainda escorre. E o mundo é sémen que pare um filho: dois, mil, nove… É rasgos aflitos e embalos de neuroses. Sem tempo. Quanto tempo existe mais? Quantos fios por onde se escorre existem? Miragens. E o meu é “lente-ampliada-olho-de-peixe” que vê salgado com um travão adocicado. E entra nos poros da pele para ser mundo a acontecer…

Pega na fruta e rasga-lhe a pele . Lambe os dedos como se resgatasses um vida. Das sete que te dão, para multiplicares. Porque o mundo é berço onde começam as pegadas. E o olhar é gesto abnegado…Como o fogo quando arde até ao fim. Gasta-te. Bebe seiva das palavras que te dão. Redescobres em cada homem um alfabeto. Dicionário sentido para decifrar, sem reedições e risco de perda de memória. Amnésia colectiva para recordar.

A rota é homem em cada quilómetro. Rendidos ao embalo do rio. Espero por mim em cada porto de homens. Em cada mão com agruras que cosem o sustento em linhas bem dobadas para ser, antes de remendar. Se cada homem for trapo, então o mundo é manta que não cobre ninguém.

O mundo começa assim, sempre aqui, no ponto onde estamos. Onde os acasos acontecem porque seguimos viagem, provamos o suor e o cheiro ácido dos outros que nos adocica a vida. De cada gota que sai do corpo que se transforma em grão-de-açúcar. O mundo começa assim. Quando se arregaça as mangas, como prisões de (a)braços que querem sê-lo, porque escondem histórias que só aos quatro elementos sussurram. E esses nunca lhas podem roubar. Apenas ouvir como velhos confidentes.

Por isso, o mundo é livro que nunca folheamos até os sentidos decifrarem os sinais e aprenderem a olhar as páginas em branco onde se escrevem as memórias .

Sentidos…

Postado por Vanessa Rodriguesem 18 de Agosto de 2009

chuva01 As viagens são janelas sem vidros. São saídas de emergência em constante SOS. Ar fresco que passa pelo corpo e leva a alma atrás. As viagens são caminhos para chegar a casa, sempre. Às milhares de casas que ainda nos esperam de portas abertas, como abraços que nos fazem escorregar.

Esta viagem não inicia aqui. Começou há muito e respira todos os dias antes de ser. Transpira. Liquefaz-se nas coordenadas que ainda estão por dar, na expectativa de agregar sem descobrir, de viver de olhos fechados, enquanto não aprendermos a ver.

E ver pode ser isto: colocar a venda e sentir. De malas feitas em seis sentidos, mais aqueles que a cinestesia esconde e nos faz perceber que o que nos toca, agarra, magnetiza aos outros e aos lugares, é o termómetro da intensidade dos olhares, aromas, tactos, gostos, calores, humanidade, ruídos e silêncios, intuições, e espaços interpretados que não ousamos desvendar.

Queremo-los só para nós. “Schhhhh”: assim baixinho para que ninguém nos ouça. E isso vai connosco. Nas memórias, nos baús internos que reagem como reflexos condicionados do sigilo absoluto do que somos. Ou achamos que somos. E, afinal, quanto de humanidade há nos sentidos?

As viagens sabem-nos. E elas podem ser só isto: um texto que escrevemos e nos leva a levitar, um suspiro calado que nos adormeceu o redor para irmos já-ali-e-voltar. Esta viagem é aqui, portanto, onde o mundo é sempre uma possibilidade. Onde começa. Basta aprendermos a reparar, antes de aprendermos a olhar…

Esta viagem é, portanto, um kit de emergência/urgência/voo para cumprir os sentidos, antes que me punam por não ter sabido reparar que, quem sente assim tem a obrigação de partilhar, nem que seja só um pouquinho.

Esta viagem é milhares delas ao redor do que já se viu, ouviu e sentiu. (?) É um punho cerrado anti-crise global. Uma ficção: esta viagem não existe. Já foi! É uma mão encostada à parede a sentir as rugas da tinta. O estalar do verniz. O romper das veias das árvores, das raízes da terra fofa em que queremos enfiar os pés. Húmida. O aprender a tirar as máscaras, novamente, antes de as pormos.

Esta viagem é sempre um recomeço. Um reinventar de mil pores-do-sol. Cores que não existem, mais os filtros. Até vermos qualquer semelhança com a realidade. Com os sonhos.

Uma viagem é um exercício de diferenças, egos, despojamento, ensaio sobre a verdade e transparências. De dores. Choros, risos, amarguras, borboletas nos estômago, perdições. Uma paleta de emoções que pintamos no ar e para dentro. Viajar é ser pornográfico: explorar ao tutano as cirurgias dos egos dos outros.

É ir largando o “eu-anterior” com o mais leve. E se durante não chegar lá, também não importa. Foi. É. As pegadas podem até desaparecer, mas as impressões digitais envelhecidas provaram que o melhor dos sentidos é saber respirar. E viajar é isso: reaprender a respirar em nós!

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