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Açaí e mandioca são dois tesouros do Pará

Postado por Vanessa Rodriguesem 16 de Setembro de 2009

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Publicado no Diário de Notícias a 13 de Set’ 2009

O açaí chega às cinco da manhã. Sai dos barcos, em cestas, arrastado a dezenas de mãos e corpos nus antes do amanhecer. Às nove horas já só restam duas que carregam esses pequenos bagos de fruta cor-de-beringela, no Porto da Palha, em Belém, no Brasil. Há folhas de palmeira espalhadas pela madeira do pontão. E resta um cheiro a suor dos corpos que carregaram centenas de produtos regionais. É neste porto, escondido nos arredores da cidade, que “a maioria das famílias das ilhas da região vem vender farinha de mandioca e, sobretudo, açaí, um dos principais alimentos de Belém”, conta ao DN Ana Gabriela Fontoura da Estação Gabiraba, empresa local dedicada ao Ecoturismo de base comunitária. “É um dos mais importantes, mas está um pouco degradado, sobretudo porque quem o domina são grandes empresas locais.”

O caboclo ainda tenta vender o último cesto de açaí que no Pará se come com farinha e peixe, ao contrário do resto do Brasil que o consome doce: uma “heresia” para os paraenses.

Já se desamarram cordas dos barcos. O mundo “ribeirinho” que atraca aqui de madrugada está de regresso a casa. Alguns para Boa Vista do Acará, uma comunidade do município com o mesmo nome a sudoeste de Belém. Este ano a Estação Gabiraba fez uma parceria com a Associação de Produtores locais: levam um pequeno grupo de turistas que querem conhecer o modo de vida das comunidades; as famílias dão-lhes o que a terra tem de melhor: saberes, tradições e gastronomia com temperos amazónicos. Segundo Ana Gabriela, o método “ajuda na renda familiar” e a “preservar o modo de vida tradicional. “Mudar os hábitos das populações em nome do que se acha ser desenvolvimento, não é a solução dos povos da Amazónia. Senão, um dia, quando se visitar as comunidades, elas vão dizer: antes fazia farinha, hoje vivo do turismo”.

Para passarmos para o barco que vai para Boa Vista é preciso atravessar outro, sentir o balanço da água, e saltar, para um novo desequilíbrio flutuante. Depois, solta-se a corda e o barco desliza pelas margens do rio Guamá, onde escoa a foz da bacia, banhando a cidade ao sul. A comunidade de Boa Vista do Acará está a uma hora de tolerância do barulho do motor “pó-pó-pó”, como se chama a este tipo de barcos, lentos, na gíria local. São o principal transporte de quem aqui mora.

Entra-se no canal principal. Há casas com tábuas de madeira nas margens, igarapés (canais estreitos), canoas, crianças a tomar banho na água cor-de-terra. Já a farinha de mandioca que Luísa Vilhena, 56 anos, amassa com as mãos na Casa de Farinha em Boa Vista do Acará é branco-cru. Mas a melhor mandioca para fazer o tucupi, o tempero principal da gastronomia do Pará, feito da raiz dela, “é a amarela”. Luísa corta-a, rala-a, põe-na na água para “pubar” – amolecer – durante uns dias, amassa a que já amoleceu com as mãos calejadas de vida e coloca-a num tipiti – instrumento tecido com talas de arumã, uma espécie de palmeira – para escoar a água. Minutos depois retira-a. Peneira-a e atira-a para o forno artesanal, a lenha, que o Valdomiro, o marido, está a misturar com uma espátula de dois metros para a cozer. Sacode-a no ar. Uma hora depois está pronta para comer. “É uma vida de muito sacrifício, todas as semanas. E a mandioca tem um tempo próprio. Às vezes levantamo-nos à uma da manhã para a preparar e levar para vender no mercado.”

Hoje, a comunidade de Boa Vista do Acará, além da farinha, completa a renda com jóias de sementes locais, frutas, ervas da floresta e a plantação de priprioca. A associação da comunidade dá uma ajuda na gestão, para ajudar a preservar “os tesouros do Pará”.

Sinais da Gente no De Fato

Postado por Vanessa Rodriguesem 11 de Setembro de 2009

sinaisdagenteOs Sinais da Gente foram falados no Jornal Diário de Itabira e no Jornal De Fato pelo Cleber Camargo…

Para ler aqui..

Fugido de Portugal fez outra família na ilha

Postado por Vanessa Rodriguesem 6 de Setembro de 2009

cotijuba01Publicado do Diário de Notícias a 6 de Set 2009

O bilhete de barco em papel fino, velho, rasgado e gasto, ainda deixa ler que o avô do Tiago, Patrício Gonçalves, chegou a Belém desde Lisboa, em Janeiro de 1929. “O meu pai fala pouco dele, por isso foi através da minha mãe que soube que veio fugido de Portugal: abandonou a mulher lá, e fez outra família aqui na ilha de Cotijuba.” Tiago Gonçalves, 26 anos, é “mototáxi” na ilha, nos arredores de Belém, uma actividade comum nos homens dali e um dos meios de transporte mais utilizados. A actividade dá-lhe uma ajuda nas contas da casa, enquanto não é “chamado para trabalhar como torneiro mecânico”, a sua profissão “oficial”.

Segundo Tiago, o avô trabalhou nos transportes em Belém. Mostra-o nos documentos dele que guarda, amontoados, e a desfazerem-se num saco plástico. “Depois, ele veio para a ilha e ficou por aqui até morrer.”

A fotografia a preto e branco tipo passe, deslavada, do avô e que mexe com as mãos, deixa ver uma figura magra, de bigode. “Ele trabalhava como agricultor em Portugal, conforme mostra esta carta”, aponta. O documento data de 1931, é da 1.ª Vara da Comarca de Lisboa e representa a mulher que Patrício Gonçalves deixou em Lisboa, Madalena Ferreira da Silva.

O documento descreve que dessa união “não há filhos” e que, “após o casamento”, Patrício Gonçalves terá abandonado o lar, ausentando-se, “ao que se supõe, para o Brasil, nunca mais dando notícias à requerente”. Tiago pergunta quanto custa um bilhete de avião para Portugal. Acha caro. Mas diz que “um dia há-de ir a Lisboa saber se tem parentes”.

Amazónia temperada a ervas milagrosas

Postado por Vanessa Rodriguesem 24 de Agosto de 2009

mercado

(Publicado no Diário de Notícias a 23 de Agosto 2009)

Vende-se rapé ao lado da barraca do Nildo. O cupuaçu custa dois reais o quilo. A senhora de meia-idade tira a castanha-do-pará da casca dura com um canivete para as ensacar às dúzias. E, no final da feira, na esquina do emblemático mercado Ver-o-Peso, em Belém, no Brasil, o maior a céu aberto da cidade, as centenas de garrafas com líquidos coloridos e mezinhas que Deusa Silva prepara com ervas “milagrosas” prometem curar todos os males.

“Vem cá, meu amor, tenho o remedinho que você precisa.” Viagra natural para tomar três colheres por dia, “preparo para engravidar”, tónico contra queda de cabelo, banho de descarrego “para espantar os maus espíritos” e “Atractivo do Amor”.

Deusa sabe como se atrai: “Agarradinho, carrapatinho, chega-te a mim, chora nos meus pés, busca longe, corre atrás, vai-e-volta e atractivo, quem tem alguma coisa volta de novo da perseguida: isso são as ervas que colocamos aqui, não tem segredo nenhum”, diz a erveira, que se levanta todos os dias às 05.00 e tirou um curso de inglês para “poder falar com os turistas”. “Estou quase a ir embora, daqui a pouco acaba o sol.”

Nildo Sousa ainda fica mais um pouco. Prepara há 30 anos, com a sabedoria que o pai lhe passou, as ervas que vende no Ver-o-Peso, que deve o nome a “Casa do Haver-o-Peso”, criada pelos portugueses como posto de controlo alfandegário no século XVII.

E se as ervas são o atractivo mais famoso, o cheiro a peixe, carne, verduras e temperos amazónicos entranham-se na roupa para lembrar que também dali querem sair para outras casas.

O mercado fervilha, centenas acotovelam-se, se fosse de manhã cedo os cheiros seriam de milhares de gentes.

Pôr-do-Sol a Ver-o-Peso em Belém

Postado por Vanessa Rodriguesem 24 de Agosto de 2009

mercado

(Publicado no Diário de Notícias a 23 de Agosto 2009)

Não chove há duas semanas. Há qualquer coisa de vento pegajoso que se cola à pele, antes de a humidade se entranhar no corpo, nos olhos, no cabelo, até o suor deslizar abundante, sem secar. Depois, há qualquer coisa de verde espesso que se vê ao longe, assim sentada no Forte do Castelo, onde nasceu Belém, a do Brasil português, recortado por espaços de luz, que parecem portas sulcadas na vegetação, e por onde o rio Amazonas, cor-baço-barrento, respira de alívio, dispersando-se no delta, engolfando-se em outras águas fluviais, depois de milhares de quilómetros a perder-se em leitos lentos e caudais sinuosos.

Não se estranha, por isso, que quando ele também aqui chega, fraco, quer seja porta de entrada para a Amazónia profunda quer seja rio a desaguar na foz, antes de encontrar o Atlântico, leia poros de pele, para se agarrar a nós de gente que são mundo desta Cidade Morena, de mesclas de peles, feita de seduções forçadas há quase quatro séculos, entre portugueses e os índios Tupimunbá.

E, agora, só os abutres negros planam sobre a baía do Guajará, ao fim da tarde, sob o porto de Belém, à procura do cheiro acre de peixe, depois dos restos de pesca nos barcos ancorados, precários, numa dor de cabeça para a fiscalização, enquanto os botos-cinza ali na água, parentes dos golfinhos, vêm à tona para respirar.

O barco de ronda da polícia militar rasou-os. O caboclo que lava o corpo já não os viu, mergulhou e nadou até ao barco Jesus de Nazaré. A espanhola de visita não sabe o que são, e pergunta ao Ricardo, que guarda o forte, a olhar o mercado Ver-o-Peso, até o Sol se pôr, todos os dias. E, ao longe, esse sol, já desce o horizonte dourando as águas barrentas, enchendo-se de laranja-cor. Ricardo diz que o sabe imaginar fielmente se fechar os olhos, e que a pior altura para o admirar é no Círio de Nazaré, que a cidade anda a preparar para daqui a oito semanas, quando a maior festa religiosa de Belém enche as ruas de incenso, barracas com frituras e churrascos improvisados, numa traição consentida aos sabores e cheiros que a fazem amazónica.

Durante o ano ela é português reinventado na gastronomia, nos frutos, na língua, como a raça de mil raças daqui: tapioca, cupuaçu, buriti, açaí, bucuri, priprioca, andiroba, graviola, tacacá, tucupi, maniçoba. Quantas linguagens dentro da linguagem? Quantos gingados de pronúncias tem o português?

O Henrique Valente não sabe. Ele que já mistura o de Portugal com o do Brasil há 40 anos. E já chega: vai voltar a Portugal assim que vender a fazenda em Macapá, no estado amazónico do Amapá, a 24 horas de barco daqui. Não é mais a Belém que conheceu. A de hoje é violenta. Cresceu desmesuradamente. Tem mais de um milhão de habitantes e os tentáculos urbanos fizeram brotar arranha- -céus, ao lado de casarões coloniais e praças planeadas pelos senhores da “Lusitânia Feliz”, quando aqui chegaram.

O progresso crava problemas sanitários de águas de lodo ressequido nos passeios, insegurança, prostituição infantil e tráfico de mulheres para a Europa e países da fronteira amazónica, sobretudo a Guiana Francesa.

Andy Vale conhece os meandros. Ela que quase morreu afogada no Amazonas, depois de o barco em que seguia se ter afundado, em 2001. Esteve dezasseis horas presa pelo cabelo a galhos num ribeiro, até ser resgatada pela Marinha brasileira.

Embarcações precárias são “normais”. Negócios duvidosos também, e que o vasto caudal amazónico esconde, entre hidrovias e redutos de emaranhado de selva, sem pôr do Sol. E o que se perde no horizonte agora já não vê o “Peso”.

É meio círculo velado entre nuvens baças em despedida lenta: laranja fluorescente forte, recortado, como quem diz que amanhã, afinal, também não chove.

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