{"id":948,"date":"2009-11-23T11:04:50","date_gmt":"2009-11-23T14:04:50","guid":{"rendered":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/?p=948"},"modified":"2009-11-23T11:04:50","modified_gmt":"2009-11-23T14:04:50","slug":"brasil-caboclo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/?p=948","title":{"rendered":"Brasil Caboclo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Excerto de um dos meus companheiros de viagem: &#8220;O Povo Brasileiro&#8221; de Darcy Ribeiro&#8230;(1995)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mais da metade da popula\u00e7\u00e3o original de caboclos da Amaz\u00f4nia j\u00e1 foi desalojada de seus assentos, jogada nas cidades de Bel\u00e9m e Manaus. Perde-se assim, toda a sabedoria adaptativa milenar que essa popula\u00e7\u00e3o havia aprendido dos \u00edndios para viver na floresta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda a \u00e1rea desse sistema fluvial Solim\u00f5es-Amazonas era ocupada, originalmente, por tribos ind\u00edgenas de adapta\u00e7\u00e3o especializada \u00e0 floresta tropical.<br \/>\nEm nenhuma outra regi\u00e3o brasileira a popula\u00e7\u00e3o enfrenta t\u00e3o duras condi\u00e7\u00f5es de miserabilidade quanto os n\u00facleos caboclos dispersos pela floresta, devotados ao extrativismo mineral vegetal e, agora, tamb\u00e9m ao extrativismo mineral do ouro e do estanho. Os seus modos de vida constituem um variante s\u00f3cio-cultural t\u00edpico da sociedade nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A caracter\u00edstica b\u00e1sica dessa variante \u00e9 o primitivismo de sua tecnologia adaptativa, essencialmente ind\u00edgena, conservada e transmitida, atrav\u00e9s de s\u00e9culos, sem altera\u00e7\u00f5es substancias.<br \/>\nCom o surgimento dos seringais cultivados no Oriente e da borracha sint\u00e9tica, a explora\u00e7\u00e3o da borracha nativa tornou-se economicamente invi\u00e1vel. Desde ent\u00e3o, o seringal s\u00f3 sobrevive gra\u00e7as a um protecionismo estatal que o mant\u00e9m artificialmente, mas sem a preocupa\u00e7\u00e3o de amparar a massa de trabalhadores nele engajada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os protagonistas desses esfor\u00e7os foram alguns lusitanos , muito neobrasileiros mesti\u00e7os, e a indiada engajada como m\u00e3o de obra escrava.<br \/>\nA rea\u00e7\u00e3o ind\u00edgena a esse tratamento desencadeou a guerra e o afastamento das tribos antes aliadas para ref\u00fagios em que se punham a salvo da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma solu\u00e7\u00e3o melhor seria encontrada com a instala\u00e7\u00e3o de n\u00facleos mission\u00e1rios, principalmente jesu\u00edticos, mas tamb\u00e9m carmelitas e franciscanos. Mas estes tiveram que lutar muito com os pr\u00f3prios colonizadores pra impor como a mais racional e proveitosa.<br \/>\nO conv\u00edvio entre \u00edndios de diferentes matrizes impuseram a homogeneiza\u00e7\u00e3o ling\u00fc\u00edstica e o enquadramento cultural compuls\u00f3rio no corpo de cren\u00e7a e nos modos de vida dos seus cativadores.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram, no entanto, reduzindo progressivamente as popula\u00e7\u00f5es tribais aut\u00f4nomas, prela incorpora\u00e7\u00e3o do sistema de contagio que as dizimava, vitimadas por enfermidade antes desconhecidas, pela guerra e pelo engajamento e desgaste no trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi surgindo uma popula\u00e7\u00e3o nova, herdeira da cultura tribal no que ela tinha de forma adaptativa \u00e0 floresta tropical. Falava uma l\u00edngua ind\u00edgena, muito embora esta se difundisse como a l\u00edngua da civiliza\u00e7\u00e3o, aprendida de brancos e mesti\u00e7os. Como os \u00edndios, finalmente localizava e coletava na mata as especiarias cujo valor comercial tornava vi\u00e1vel a ocupa\u00e7\u00e3o neobrasileira da Amaz\u00f4nia e a vinculara \u00e0 economia internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhum colonizador sobreviveria na mata sem esses \u00edndios que eram seus olhos, suas m\u00e3os e seus p\u00e9s.<br \/>\nA Coroa Portuguesa esfor\u00e7ou-se por estabilizar a sociedade nascente, estimulando o cultivo de algumas plantas ind\u00edgenas.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desse modo, ao lado da vida tribal que fenecia em todo o vale, al\u00e7ava-se uma sociedade nova de mesti\u00e7os que constituiria uma variante cultural diferenciada da sociedade brasileira: A dos caboclos da Amaz\u00f4nia. Seu modo de vida, essencialmente ind\u00edgena enquanto adapta\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gico-cultural, contrastava flagrantemente, no plano social, com o estilo de vida tribal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pleno amadurecimento da nova estrutura societ\u00e1ria s\u00f3 se deu co o rompimento da dualidade que a dividia em redu\u00e7\u00f5es mission\u00e1rias e n\u00facleos colonizadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Coroa portuguesa, empenhada em consolidar a ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, constru\u00ed uma rede de cidades urbanizadas e dotadas de servi\u00e7os p\u00fablicos e igrejas que chegaram a ser suntuosos para a regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dupla fun\u00e7\u00e3o dessa massa cabocla foi a de m\u00e3o de obra de explora\u00e7\u00e3o extrativista de drogas da mata exportadas para a Europa. Foi tamb\u00e9m instrumento de captura e dizima\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas aut\u00f4nomas.<br \/>\nSobre o caboclo ca\u00edram duas ondas de viol\u00eancia. A Primeira veio com a extraordin\u00e1ria valoriza\u00e7\u00e3o da borracha no mercado mundial, lan\u00e7ando sobre eles gentes vindas de toda parte para explorar a nova riqueza.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perderam sua l\u00edngua pr\u00f3pria, adotando o portugu\u00eas. A segunda onda ocorre em nossos dias com a nova invas\u00e3o da Amaz\u00f4nia pela sociedade brasileira, provocando o desalojamento dos caboclos das terras que ocupavam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A percep\u00e7\u00e3o que \u00edndios e caboclos tinham do inimigo como seu opressor \u00e9tnico adquire aqui a crueza de uma oposi\u00e7\u00e3o racista que engloba todos os \u201chomens de cor\u201d numa s\u00f3 categoria de inimigos a serem exterminados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e9culo passado a regi\u00e3o amaz\u00f4nica volta a experimentar uma quadra de prosperidade, motivada agora pela crescente valoriza\u00e7\u00e3o nos mercados mundiais de um de seus produtos tradicionais de coleta: a borracha, com desenvolvimento da industria europ\u00e9ia e norte-americana de autom\u00f3veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma ferrovia \u00e9 constru\u00edda em plena mata, \u00e0 custa de enormes sacrif\u00edcios humanos, a Madeira-Mamor\u00e9, que ligaria concentra\u00e7\u00f5es de seringueiras de Porto Velho at\u00e9 o Rio Mamor\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada trabalhador engressava no servi\u00e7o com sua feira e seu d\u00e9bito, que aumentaria cada vez mais com os suprimentos de alimenta\u00e7\u00e3o, de rem\u00e9dios, de roupas providas pelo barrac\u00e3o. Dificilmente um seringueiro consegue saldar essa conta que o mant\u00e9m em regime de servid\u00e3o virtual enquanto possa resistir \u00e0s terr\u00edveis condi\u00e7\u00f5es de vida a que \u00e9 submetido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em cada seringal, um grupo de caboclos amaz\u00f4nicos exerce as fun\u00e7\u00f5es de mestre. Ensinam a identificar a seringueira, a sangra-la diariamente sem afetar-lhe a vida, a colher o l\u00e1tex e a defuma-lo cuidadosamente para formar as bolas de borracha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A prosperidade da economia extrativista interrompeu-se, por\u00e9m, abruptamente com a Primeira Guerra Mundial. N\u00e3o se refaria jamais por causa da entrada no com\u00e9rcio mundial da produ\u00e7\u00e3o dos seringais plantados pelos ingleses no Oriente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A decad\u00eancia da economia da borracha matou tamb\u00e9m as cidades que floresciam pela Amaz\u00f4nia inteira, provocando o completo abandono de algumas e a completa deteriora\u00e7\u00e3o de outras. Sem produ\u00e7\u00e3o b\u00e1sica para exportar, o com\u00e9rcio deca\u00eda, sobrevivendo apenas com o apelo a especula\u00e7\u00e3o e ao contrabando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desequil\u00edbrio da economia regional, suas dificuldades de integra\u00e7\u00e3o na vida do pa\u00eds e as prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia de suas popula\u00e7\u00f5es levaram os constituintes de 1946 a destinar uma parcela de 3% das rendas federais a um programa de valoriza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal como a pobreza do Nordeste \u00e1rido fez do amparo federal uma \u201cind\u00fastria da seca\u201d, a pen\u00faria dos caboclos da Amaz\u00f4nia fez do \u201cdesenvolvimento regional\u201d um rico neg\u00f3cio e um mecanismo de consolida\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da oligarquia local.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tentativa de espolia\u00e7\u00e3o assumiu a forma de uma proposta, apresentada \u00e0 ditadura pelo governo norte americano, de arrendamento da \u00e1rea por 99 anos com o fim de \u201cestuda-la e comprovar experimentalmente as t\u00e9cnicas adequadas para promover o seu desenvolvimento\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\n<\/strong>\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Darcy Ribeiro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Darcy Ribeiro foi antrop\u00f3logo, romancista e pol\u00edtico. Criador do Museu do \u00cdndio (1953) e fundador da Universidade de Bras\u00edlia. Publicou v\u00e1rias obras:\u00a0 \u201cL\u00ednguas e Culturas Ind\u00edgenas do Brasil\u201d , \u201cO Processo Civilizat\u00f3rio\u201d, \u201cMaira\u201d, \u201cO Mulo\u201d, entre outras as origens e mazelas do povo brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO povo brasileiro\u201d \u00e9 para a Hist\u00f3ria do Brasil uma das mais importantes obras de ci\u00eancias sociais sobre a forma\u00e7\u00e3o da identidade. \u00c9 um livro que desvela, pormenoriza e criticamente, cada aspecto da forma\u00e7\u00e3o da gente brasileira, das estruturas sociais e das caracter\u00edsticas que fazem o imenso\u00a0 e d\u00edspar Brasil .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cN\u00f3s, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de s\u00ea-lo. Um povo mesti\u00e7o na carne e no esp\u00edrito, j\u00e1 que aqui a mesti\u00e7agem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por s\u00e9culos sem consci\u00eancia de si&#8230; Assim foi ate se definir como uma nova identidade \u00e9tnico-nacional, a de brasileiros&#8230;\u201d<\/em><br \/>\nDarcy Ribeiro<\/p>\n<div class=\"linkwithin_hook\" id=\"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/?p=948\"><\/div><script>\n<!-- \/\/LinkWithinCodeStart\nvar linkwithin_site_id = 197359;\nvar linkwithin_div_class = \"linkwithin_hook\";\n\/\/LinkWithinCodeEnd -->\n<\/script>\n<script src=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/widget.js\"><\/script>\n<a href=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/pixel.png\" alt=\"Related Posts with Thumbnails\" style=\"border: 0\" \/><\/a><script type=\"text\/javascript\">AKPC_IDS += \"948,\";<\/script>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Excerto de um dos meus companheiros de viagem: &#8220;O Povo Brasileiro&#8221; de Darcy Ribeiro&#8230;(1995) &#8220;Mais da metade da popula\u00e7\u00e3o original de caboclos da Amaz\u00f4nia j\u00e1 foi desalojada de seus assentos, jogada nas cidades de Bel\u00e9m e Manaus. 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