{"id":888,"date":"2009-10-30T13:19:21","date_gmt":"2009-10-30T16:19:21","guid":{"rendered":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/?p=888"},"modified":"2009-10-30T13:24:24","modified_gmt":"2009-10-30T16:24:24","slug":"subornosdesmatamento","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/?p=888","title":{"rendered":"Subornos, desmatar"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/dn.sapo.pt\/inicio\/globo\/interior.aspx?content_id=1394059&amp;seccao=CPLP\" target=\"_blank\"><\/a><a href=\"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/wp-content\/uploads\/roadmaraba.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-889\" title=\"roadmaraba\" src=\"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/wp-content\/uploads\/roadmaraba.jpg\" alt=\"roadmaraba\" width=\"200\" height=\"120\" \/><\/a>Publicado no DN a 18 Out&#8217; 2009<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong><span id=\"ctl00_ctl00_bcr_maincontent_ThisContent\">Quatrocentos quil\u00f3metros de Marab\u00e1 a Ouril\u00e2ndia do Norte: as grandes empresas de minera\u00e7\u00e3o e celulose devastam o cora\u00e7\u00e3o da selva amaz\u00f3nica. Os fogos multiplicam-se um pouco por toda a parte<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<p><span id=\"ctl00_ctl00_bcr_maincontent_ThisContent\"> <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A C\u00e9lia est\u00e1 revoltada. Olha incr\u00e9dula para o vale nu. Aproxima-se da janela da carrinha como se ampliasse o olhar para se certificar de que est\u00e1 a ver bem. Suspira &#8220;Meu Deus!&#8221; baixinho. &#8220;H\u00e1 dois anos tudo isto era mata&#8221;, murmura, enquanto olha as bermas da prec\u00e1ria estrada PA-150 que liga o Nordeste do estado do Par\u00e1 at\u00e9 ao sul, no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Partimos de Marab\u00e1 at\u00e9 Ouril\u00e2ndia do Norte: 400 quil\u00f3metros. At\u00e9 l\u00e1 \u00e9 preciso dormir em Xinguara e apanhar outro autocarro no dia seguinte. C\u00e9lia continua a falar baixinho: &#8220;N\u00e3o se sabe quem vai&#8221; na carrinha. &#8220;Esta regi\u00e3o est\u00e1 toda desmatada. S\u00f3 se v\u00ea bois e grandes fazendas. E as grandes empresas de minera\u00e7\u00e3o e celulose est\u00e3o a devastar a \u00e1rea com o consentimento dos governos locais&#8221;, diz C\u00e9lia ao DN. &#8220;Quem os denuncia corre risco de vida. \u00c9 preciso falar baixinho.&#8221; C\u00e9lia Maracaj\u00e1 trabalha na Funda\u00e7\u00e3o Curro Velho, em Bel\u00e9m, uma ONG que promove a cultura regional. Ela j\u00e1 galgou muito a Amaz\u00f3nia a fazer document\u00e1rios para o projecto &#8220;TV, Navegar Amaz\u00f3nia&#8221;, do cineasta brasileiro Jorge Bodanzky. J\u00e1 falou &#8220;alto&#8221; para denunciar, fez reportagens e campanhas pelo Partido dos Trabalhadores (PT), o mesmo do Presidente Lula da Silva. E j\u00e1 teve o nome na lista negra de alguns pol\u00edticos na regi\u00e3o. Conhece as lutas e o suor que sai do corpo de &#8220;muita gente&#8221;, para &#8220;salvar&#8221; a Amaz\u00f3nia. O desmatamento continua a ser uma &#8220;doen\u00e7a cr\u00f3nica&#8221;, mas a &#8220;pistolagem&#8221; tamb\u00e9m (&#8220;s\u00e3o homens armados que matam para calar&#8221;). &#8220;Esta \u00e9 uma &#8220;Amaz\u00f3nia que n\u00e3o vem nos guias&#8221;, ironiza. C\u00e9lia est\u00e1 a caminho de S\u00e3o F\u00e9lix do Xingu, mais a sudoeste, por causa da homologa\u00e7\u00e3o da terra ind\u00edgena Moicarac\u00f3, de etnia kayop\u00f3. Ainda n\u00e3o sabe como vai chegar at\u00e9 l\u00e1. E o Presidente Lula da Silva ainda n\u00e3o confirmou. A carrinha que a leva at\u00e9 meio do caminho, em Xinguara, foi um &#8220;improviso&#8221;. O autocarro que iria apanhar avariou. N\u00e3o havia outro para substituir. &#8220;Aqui \u00e9 terra de ningu\u00e9m, a lei \u00e9 feita pelos homens e pela bala&#8221;, desabafa. Foi por essa &#8220;lei&#8221; que o cart\u00e3o do meu chip de telem\u00f3vel brasileiro foi clonado. Comprei uma recarga de cr\u00e9dito que entrou noutro n\u00famero. &#8220;Isso acontece&#8221;, diz o dono do bar que ma vendeu na rodovi\u00e1ria de Marab\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 sa\u00edda da cidade, o motorista da carrinha passa no &#8220;posto de fiscaliza\u00e7\u00e3o&#8221;. Leva quatro passageiros a mais, em p\u00e9. Ele p\u00e1ra, remexe no bolso da camisa e d\u00e1 60 reais (cerca de 20 euros) ao fiscal do posto que lhe deseja &#8220;boa viagem&#8221;. &#8220;Voc\u00ea percebeu?&#8221;, dizem, baixinho, os olhos de C\u00e9lia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os cami\u00f5es que passam v\u00e3o cheios de gado. N\u00e3o se pode falar sobre isso, nem sequer &#8220;baixinho&#8221;. Alguns camionistas v\u00e3o acompanhados de mi\u00fadas com idade para serem filhas. Cheira a queimado. No meio da mata h\u00e1 pequenos focos de fogo. O fedor a carbonizado mistura-se com o de estrume no ar. O motorista aumenta o volume do r\u00e1dio. Ouve-se o som da moda do Par\u00e1: o techobrega \u00e9 uma mistura de m\u00fasica electr\u00f3nica e caribenha com sons de \u00f3rg\u00e3o e batidas de baile.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entram duas mulheres loiras com um c\u00e3o chamado Harley. Os homens que v\u00e3o na parte traseira da carrinha animam-se em sorrisos lun\u00e1ticos e &#8220;bocas&#8221; atrevidas. O clima fica pesado. Anoitece. H\u00e1 mais fogo na berma da estrada. O fumo tira a visibilidade e intoxica. A ponte que atravessamos est\u00e1 esburacada. H\u00e1 tatus na berma da estrada, sapos a atravessarem-na e uma enorme cobra morta. Queriam fugir do fogo. Seis horas e meia de estrada para galgar 200 quil\u00f3metros e chegamos a Xinguara. A C\u00e9lia procura uma pousada &#8220;decente&#8221;. A primeira tem escadas de tijolo, inacabada, quartos com cheiro a esgoto, bichos em festa no ch\u00e3o e o dono garante que n\u00e3o encontraremos &#8220;melhor&#8221;. A segunda tentativa: o quarto parece uma cela solit\u00e1ria, insalubre, com marcas de v\u00e1rios bichos mortos nas paredes. E a retrete do WC tem manchas coloridas que preferimos n\u00e3o saber o que \u00e9. \u00daltima hip\u00f3tese para dormir: temos o &#8220;b\u00e1sico&#8221; e chuveiro com \u00e1gua fria. &#8220;Est\u00e1 bom assim&#8221;, achamos. \u00c9 tarde, e na terra de ningu\u00e9m n\u00e3o encontraremos &#8220;melhor&#8221;.<\/p>\n<div class=\"linkwithin_hook\" id=\"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/?p=888\"><\/div><script>\n<!-- \/\/LinkWithinCodeStart\nvar linkwithin_site_id = 197359;\nvar linkwithin_div_class = \"linkwithin_hook\";\n\/\/LinkWithinCodeEnd -->\n<\/script>\n<script src=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/widget.js\"><\/script>\n<a href=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/pixel.png\" alt=\"Related Posts with Thumbnails\" style=\"border: 0\" \/><\/a><script type=\"text\/javascript\">AKPC_IDS += \"888,\";<\/script>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado no DN a 18 Out&#8217; 2009 Quatrocentos quil\u00f3metros de Marab\u00e1 a Ouril\u00e2ndia do Norte: as grandes empresas de minera\u00e7\u00e3o e celulose devastam o cora\u00e7\u00e3o da selva amaz\u00f3nica. 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