{"id":780,"date":"2009-10-30T19:00:31","date_gmt":"2009-10-30T22:00:31","guid":{"rendered":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/?p=780"},"modified":"2011-02-18T15:32:04","modified_gmt":"2011-02-18T18:32:04","slug":"780","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/?p=780","title":{"rendered":"sinais di\u00e1rios [.1.]"},"content":{"rendered":"<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>10\/10| Dia 54<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> S\u00e3o 5 horas da manh\u00e3. O avi\u00e3o \u00e9 \u00e0s 7h10: regresso a Bel\u00e9m para passar o C\u00edrio de Nazar\u00e9. Tanto pediram que fossemos, que estivessemos, porque era (\u00e9) uma experi\u00eancia \u00fanica. No final conseguimos estar, gra\u00e7as a C\u00e9sar Neves da Unimed Bel\u00e9m, feito de semente portuguesa, e um dos respons\u00e1veis pela coordena\u00e7\u00e3o do C\u00edrio. \u201c\u00c9 o maior fen\u00f3meno religioso do mundo. Imposs\u00edvel faltar\u201d, disse. A Nossa Senhora da Nazar\u00e9 \u00e9 a padroeira da Amaz\u00f3nia.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Volta-se de avi\u00e3o para a terra do C\u00edrio. O t\u00e1xi chegou \u00e0s 5h20. Na r\u00e1dio o locutor inflamado (a esta hora, sim) brada pelos \u201cpecados\u201d do Par\u00e1, da promiscuidade pol\u00edtica, da falta de m\u00e9dicos e da precariedade do sistema de sa\u00fade da regi\u00e3o, incitando os paraenses a serem \u201ccidad\u00e3os\u201d. Depois, um bloco noticioso, de narra\u00e7\u00e3o improvisada sobre tiros e escatalogia criminal da regi\u00e3o. \u201cFoi baleado \u00e0 porta de casa\u201d.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">No aeroporto de Santar\u00e9m, vemos uma m\u00e3o a acenar. \u00c0quela hora ainda est\u00e1vamos a dormir em p\u00e9, orientados por um qualquer mecanismo interno que nos permite cumprir os m\u00ednimos ol\u00edmpicos nestas circunst\u00e2ncias. N\u00e3o poderia ser para n\u00f3s! Insistem. A m\u00e3o acena, incessantantemente. Uma, duas, tr\u00eas, quatro: v\u00e1rias m\u00e3os a acenarem. Blaf! Rostos vermelhos, cabelos loiros. N\u00e3o reconhe\u00e7o logo \u00e0 primeira. \u00c9 o grupo de estudantes do projecto de interc\u00e2mbio SIT dos EUA que conhecemos na Ilha da Romana e em Marud\u00e1 o m\u00eas passado. \u201cIncr\u00edvel que os nossos destinos voltaram-se a cruzar, \u00e0s 6h da manh\u00e3 no aeroporto de Santar\u00e9m\u201d, diz a mais alta. Vieram de Manaus e regressam hoje, no mesmo voo, para Bel\u00e9m.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Fazemos o caminho inverso que fizemos de barco. Do alto vemos o mesmo rio e desfazemos as d\u00favidas: \u201cSe o barco tivesse parado em alguma daquelas imensas margens e nos tivesse deixado ao acaso: 1. Andar\u00edamos centenas de quil\u00f3metros sem encontrar vivalma; 2. Andar\u00edamos at\u00e9 perceber que o peda\u00e7o de terra onde nos deixaram \u00e9 uma ilha que o Amazonas resolveu criar este m\u00eas. \u201cNem os brasileiros conhecem o Amazonas\u201d, dizia Douglas dias atr\u00e1s, o comandante do barco Santar\u00e9m da companhia Marques Pinto que nos carregou por 3 dias pelo rio. \u201c\u00e9 preciso estar muito atento porque o rio muda muito e \u00e9 trai\u00e7oeiro. Forma ba\u00edas num s\u00f3 dia, deixa a descoberto ilhas que submerge noutras alturas\u201d. Assim, visto do alto, o Amazonas \u00e9 uma grande estrada de \u00e1gua, com igarap\u00e9s dentro de canais, rios dentro de ribeiros, como uma gigante l\u00edngua geogr\u00e1fica. Quando h\u00e1 um maior peda\u00e7o de terra, vemos a paisagem mais medi\u00e1tica da Amaz\u00f3nia: terra desmatada, com pequenos pontos brancos e castanhos da fam\u00edlia pecu\u00e1ria. \u201cN\u00e3o \u00e9 essa a voca\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f3nia, por que raz\u00e3o destru\u00ed-la para a pecu\u00e1ria e n\u00e3o aproveitar os recursos\u201d.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Chegar a Bel\u00e9m \u00e9 pensar sempre que esta paisagem que se v\u00ea do alto, marca. E qualquer tentativa de explic\u00e1-la, descrev\u00ea-la, partilh\u00e1-la \u00e9 uma frustra\u00e7\u00e3o que se agarra aos dedos, amarrando-os em pura letargia.?\u00c0s 16h30 come\u00e7a a missa da traslada\u00e7\u00e3o da Nossa Senhora da Nazar\u00e9\u2026.<\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>09\/10 | Dia 53 <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">O despertador avisa: 7 horas da manh\u00e3. (N\u00e3o tenho alma de marinheira, assim, madrugadora. S\u00f3 a tenho no deslumbre de navegar, ponto.!Nada de fant\u00e1stico, portanto) A noite teve ondula\u00e7\u00e3o, alergia, calor-frio, nariz congestionado, colch\u00e3o duro, len\u00e7\u00f3is pu\u00eddos (j\u00e1 o disse?) e corpo massacrado. Ser\u00e1 que ainda falta muito para Santar\u00e9m? O telem\u00f3vel j\u00e1 apanha rede, depois de 2 dias sem qualquer sinal. O pequeno-almo\u00e7o est\u00e1 a ser servido desde as 6h. Ao longe v\u00ea-se um arranha-c\u00e9us. Espera a\u00ed, um arranha-c\u00e9us no meio do rio? H\u00e3? \u00c0s 7h30? Ali \u00e9 Santar\u00e9m. Ainda d\u00e1 tempo de tomar pequeno-almo\u00e7o? \u201cCom calma, o barco ainda vai demorar uma hora a l\u00e1 chegar e ficaremos atracados at\u00e9 \u00e0s 14h em Santar\u00e9m\u201d, diz o comandante. Mas a senhora da limpeza quer arrumar a cabine e n\u00e3o p\u00e1ra de perguntar pela chave, como se fosse uma \u201c\u00e9femera\u201d. Digo-lhe que ainda vou arrumar a mochila e que, numa hora, despacho tudo. Depois o comandante diz-me para ter calma. N\u00e3o preciso apressar-me. Mas para a senhora, n\u00e3o adianta. De 5 em 5 minutos a senhora resolve bater \u00e1 porta para que eu n\u00e3o me esque\u00e7a de lhe dar a chave. E mesmo quando come\u00e7o a ajudar uma senhora, escada-abaixo com a mala, a mulher \u201cef\u00e9mera\u201d come\u00e7a a irritar-se e pergunta se aquela era a minha \u00faltima mala e se a cabine j\u00e1 ficou livre. Eu come\u00e7o a irritar-me, confesso, e pergunto-lhe se o barco n\u00e3o vai ficar at\u00e9 \u00e0s 14h aportado. Ele diz que sim. Eu refor\u00e7o que ainda s\u00e3o 8h e que pretendo ficar mais duas horas. Ela entra em desespero. Eu n\u00e3o entendo, mas ela s\u00f3 quer, no fundo, que eu n\u00e3o me esque\u00e7a de lhe dar a chave (isso porque a no\u00e7\u00e3o de arruma\u00e7\u00e3o de cabine \u00e9 substituir o len\u00e7ol pu\u00eddo por outro e mudar a fronha= 5 minutos). Pragueja um pelo-amor-de-deus-alto seguido de um tanto-tempo-para-entregar-a-chave. E isso porque aportamos h\u00e1 cinco minutos\u2026<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">L\u00e1 fora passageiros tiram fotos com o comandante. Descarregam e carregam o barco. Homens de corpos suados e bra\u00e7os nus musculados, peles morenas, brancas e pardas. H\u00e1 um homem chato que pergunta se quero t\u00e1xi. N\u00e3o gosto de colas assim, mas acabamos por ceder porque n\u00e3o h\u00e1 mais nada ao redor.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Procura-se pousada, hotel, pouso, cama, camarata, um colch\u00e3o, qualquer coisa a pre\u00e7o amigo, honesto e \u201climpinho\u201d para pousar o corpo\u2026 O taxista revela-se realmente uma daquelas almas faladoras tipo melga-j\u00e1-chega-por-favor-num-tom-de-pelo-amor-de-deus-da-mulher-ef\u00e9mera-qualquer-que-ele-seja-desde-que-me-acuda. Depois, como todos os taxistas, ele \u00e9 uma boa fonte de hist\u00f3rias. Esteve 17 anos no Garimpo de ouro ali na regi\u00e3o do Tapaj\u00f3s. E j\u00e1 rodou v\u00e1rios: Mato Grosso, Rond\u00f4nia e Bol\u00edvia. Diz que hoje h\u00e1 menos ouro. E sim usava merc\u00fario, claro. E sim \u00e9 dinheiro que t\u00e3o f\u00e1cil vem, t\u00e3o f\u00e1cil vai. Uma ilus\u00e3o, como dizem todos os ex-garimpeiros. \u201cGanhava muito, mas tamb\u00e9m quando vinha para a cidade, gastava tudo. No dia seguinte tudo voltava ao zero\u201d, conta. \u201cHouve uma vez que encontramos 600 gramas de ouro\u201d. Sabemos: \u00e0 terceira \u00e9 de vez\u2026E foi, o meu ouro n\u00e3o teria 600 gramas, mas teria uma cama, WC com vista para o Tapaj\u00f3s!<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>08\/10| Dia 52<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> Parece que ainda n\u00e3o se saiu de Bel\u00e9m. O dia que passou foi lento e c\u00e9lere. O oposto de S\u00e3o Paulo. Se um dia ali parecem, por vezes 7, outras at\u00e9 15 \u2013 porque se vive alucida e vertiginosamente nessa cidade onde tudo acontece \u2013 aqui os dias lentos e , ao mesmo tempo, r\u00e1pidos, passam em dias como se fossem um. N\u00e3o h\u00e1 telefone, n\u00e3o h\u00e1 internet, h\u00e1 o sil\u00eancio, uma imensid\u00e3o de \u00e1gua cor-de-barro, margens que parecem repetir-se, mas s\u00e3o sempre diferentes, floresta imensa (E penso que se o barco me deixasse aqui agora, para onde iria? Onde est\u00e3o as casas? O que tem ali no meio? Quantas centenas de quil\u00f3metros teria de galgar at\u00e9 encontrar gente? Quanta gente? Ser\u00e1 que encontraria? Ser\u00e1 que quereria? O dia \u00e9 t\u00e3o lento e, agora, t\u00e3o r\u00e1pido. Santar\u00e9m \u00e9 j\u00e1 amanh\u00e3 e, c\u00e1 dentro, penso que n\u00e3o quero. Que quero continuar ali a sentir a modorra dos dias, como se fosse um. A viver o tempo de um barco, a menos de 50 quil\u00f3metros por hora, em que nos fazemos c\u00e1 dentro e mudamos a no\u00e7\u00e3o de tempo. O que ter\u00e1 acontecido em 2 dias de viagem no mundo. Ser\u00e1 que importa? O barco p\u00e1ra. O motor afagou. \u201c\u00c9 da gasolina que vendem hoje em dia\u201d, diz um dos assistentes do comandante. \u201cV\u00e3o ter de limpar os motores. Vamos ficar parados mais um pouco\u201d, avisa. \u00c9 a segunda vez que acontece. \u201cPodem ficar tranquilos\u201d, assegura.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Vinte minutos depois os dois motores j\u00e1 est\u00e3o a funcionar. Come\u00e7a a deitar-se o sol. Desperta a lua. H\u00e1 um aglomerado de nuvens pesadas ao longe. V\u00e1rios flashes cor-de-laranja acendem-se de 20 em 20 segundos. Ar de trovoada. O foco de luz potente do barco j\u00e1 espia as margens. H\u00e1 centenas de bichos-borboletas-mosquitos atordoados nos corredores do barco com a luz e o calor. Hoje n\u00e3o corre brisa alguma para atenuar a sauna c\u00e1 fora. S\u00e3o quase 21h e o calor gasta o corpo num arfar atrofiado. S\u00f3 se est\u00e1 bem dentro do quarto, com ar-condicionado duvidoso. Seja!<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>07\/10 | Dia 51.<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> Amanhecer em Rio-Mar j\u00e1 Amazonas. Bateram \u00e0 porta \u00e0s 7h para o pequeno-almo\u00e7o: melancia, p\u00e3o, queijo e caf\u00e9. A mulher que parece a cantora espanhola Rosana vai para Manaus com o pai. Diz que j\u00e1 foi assaltada num barco no meio do Amazonas, por homens em pequenas canoas que se atracam ao barco.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">As palafitas perdidas nas margens, sem luz, a transpirar de gente. O Brasil certamente tem mais de 190 milh\u00f5es de habitantes. Esta gente que aqui mora, longe de um Brasil que se diz estar a fazer pot\u00eancia, certamente n\u00e3o se importa com as burocracias de um bilhete de identidade. Registo de qu\u00ea? Cada vez mais canoas se atracam ao barco. A t\u00e9cnica \u00e9 simples: um ferro para agarr\u00e1-lo, amarram a corda e apanham boleia do barco. Outros atracam para vender camar\u00e3o e a\u00e7a\u00ed. H\u00e1 gente \u201cestranha\u201d \u00e0 tripula\u00e7\u00e3o a circular no barco. Diz-se que \u00e9 preciso ter cuidado. H\u00e1 canoas que pedem esmola. E h\u00e1 um p\u00f4r-do-sol brutal que p\u00f5e em contraluz as canoas e os homens do Amazonas para um fim de tarde, que jamais se repetir\u00e1. H\u00e1 nuvens cinzentas, carregadas, com gotas ainda por formar, ansiosas por entrar nesta \u00e1gua m\u00e1gica.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Come\u00e7a a chover, violentamente. Quero agarrar a c\u00e2mara de filmar, a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica, a caneta, o papel, a alma, mas fico agarrada \u00e0 cabine do capit\u00e3o: a achar que tudo aquilo \u00e9 irreal e que n\u00e3o haver\u00e1 registo mais fidedigno do que o que est\u00e1 c\u00e1 dentro para cunhar aquilo: a chuva a cair copiosamente, o cinzento da \u00e1gua, do ar, da n\u00e9voa ao longe, da invisibilidade do caminho, com desconhecidos ao leme. \u00c1s vezes \u00e9 sim: vale mais confiarmos nos desconhecidos para nos guiarem no olhar turvo. Para aquilo que eu n\u00e3o vejo, n\u00e3o domino e n\u00e3o sei. Entrego no deslize destes que conhecem o Rio-Mar como ningu\u00e9m. Nada pergunto. S\u00f3 quero olhar. Por isso, garanto: n\u00e3o haver\u00e1 fotografias desta viagem.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>06\/10 \u2013 Dia 50. <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">8h: Tr\u00eas textos para terminar. N\u00e3o sei quando voltarei a ter internet\u201d. Ok. O pequeno-almo\u00e7o da Nice \u00e9 energ\u00e9tico garantido para enfrentar a anarquia do sono. Preparativos finais para o grande embalo de 3 dias para subir o Rio Amazonas. Escrita em dia, a mil. Vlup! Velocidade m\u00e1xima! Compras finais. Almo\u00e7ar \u00e0s 16h. E 17h30: O Philippe achou que est\u00e1vamos perdidos e atrasados para o embarque (e com raz\u00e3o). Ele engoliu as malas no carro at\u00e9 ao porto Marques Pinto. Engoliu-nos. Ainda gracejou com o facto de isto de se ser portugu\u00eas \u00e9 muito complicado: Nunca se sabe quando vai, para onde vai, como vai, se vai chegar a horas, a que horas volta, quando volta, ou sequer se volta. Bem vistas as coisas, tem absoluta raz\u00e3o, menos no facto de isto ser coisas de portugu\u00eas. S\u00e3o coisas assim, universais, intraduz\u00edveis, de uma certa condi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de um estrangeirismo itinerante. Estranhos ao tempo, portanto. Philippe (que aparece aqui nestes sinais com duas grafias: o antes de sabermos que era com PH e com dois p\u00e9s \u2013 embora nem ele ache muita piada; e o p\u00f3s-revolu\u00e7\u00e3o-tirania-de-conhecermos-a-grafia-que-consta-no-ERRE-G\u00ca \u2013documento de identidade brasileiro \u201cRegistro Geral\u201d) p\u00f4s o p\u00e9 no acelerador e disse que poderia mudar de profiss\u00e3o para taxista profissional. Vanessa murmurou um n\u00e3o-\u00e9-para-ouvires-mas-se-ouvires-at\u00e9-tem-piada: \u201cClaro que podias, voc\u00ea \u00e9 louco dirigindo que nem eles\u201d. Ripostou (ouviu e at\u00e9 teve piada). \u201c\u00c9! Dou dinheiro, mas n\u00e3o dou confian\u00e7a\u201d. \ud83d\ude09 Depois, deu um \u201ctchau\u201d como quem diz \u201cat\u00e9 j\u00e1\u201d e disse que a Festa do C\u00edrio seria por conta dele. Quase quatro horas depois o barco Santar\u00e9m, com o comandnte Douglas ao leme, sairia do porto, j\u00e1 pela noite dentro e a deixar no bombordo as luzes de Bel\u00e9m. Primeiro embalo violento seria a chegar a Breves, mas o cansa\u00e7o anestesiou o corpo como quem diz nada-me-importa (apesar do colch\u00e3o duro, do cub\u00edculo-cubicular para o \u201cJo\u00e3o Pestana\u201d encostar os c\u00edlios, o ar-condicionado duvidoso, amostra de len\u00e7\u00f3is pu\u00eddos e quase a rasgar, WC com chuveiro por cima da porcelana \u2013 hum!!!! \u2013 e o calor-calor-calor);<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>05\/10 \u2013 Dia 49. <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">EcoPousada Miriti. Hora da pena. Est\u00e1 sem tinta. Estou em contagem decrescente com os textos, sem criatividade, cansa\u00e7o (outro cl\u00e1ssico nesta jornada, tudo \u00e9 novo, genial e h\u00e1 pouco tempo a perder, sempre) e ainda tenho de negociar o pre\u00e7o do bilhete de barco. Ligo para a primeira empresa (que me garantem ser das melhores e a \u00fanica recomendada pelo guia Lonely Planet). O gerente do barco, Ednilson, da Marques Pinto Navega\u00e7\u00e3o \u2013 de mercadorias e passageiros- diz que pode reunir comigo durante a tarde. T\u00eam um porto exclusivo e v\u00e3o sair \u00e0s 18h do dia seguinte. Ele alinha fazer um desconto no camarote. As condi\u00e7\u00f5es do red\u00e1rio s\u00e3o insalubres e para quem viaja com computador e m\u00e1quina fotogr\u00e1fica, \u00e9 melhor esquecer a experi\u00eancia antropol\u00f3gica por esse prisma. E um dia depois de embarcar o fedor nauseabundo que sairia do WC e dos chuveiros seria motivo para um ainda-bem-que-viajo-de-camorote (se bem que o cub\u00edculo a que se chama camarote com um WC d\u00fabio e um colch\u00e3o insalubre com um len\u00e7ol pu\u00eddo n\u00e3o fica assim t\u00e3o atr\u00e1s, mas tudo pode sempre piorar, sabemos, por isso est\u00e1 bom assim).?Depois \u00e9 hora de supermercado: fruta, leite de soja e \u201cra\u00e7\u00e3o\u201d extra de bolachas\u2026 Mala, textos, mala, textos, jantar e m\u00ednimos ol\u00edmpicos do dia cumpridos\u2026<\/span><\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>04\/10 \u2013 Dia 48<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> Acordo na Pousada do Boto. Depois de uma noite de baratas voadoras, enroladas no len\u00e7ol atirado para o ch\u00e3o do WC (pois pior do que v\u00ea-la s\u00f3 mesmo mat\u00e1-la. Deix\u00e1-la estar embrulhada para n\u00e3o se ouvir o \u201cchuac\u201d do chinelo no dorso do bicho). Repelente a 100% perfume ex\u00f3tico no corpo. Nada adianta. Os mosquitos picam por cima da roupa. Vai-se almo\u00e7ar ao centro de Salvaterra. De bicicleta? Na pousada diz-se que sim, que h\u00e1. Hum. Um dos donos, diz que afinal elas n\u00e3o est\u00e3o assim em t\u00e3o boas condi\u00e7\u00f5es. Est\u00e1 sem trav\u00f5es e o pneu em baixo. Acabo por pedir emprestada a de um funcion\u00e1rio. A fome aperta. O tempo tamb\u00e9m. O barco de regresso a Bel\u00e9m \u00e9 \u00e0s 15h, o \u00fanico e a camioneta passa por ali \u00e0s 14h. Ainda terei de rodar uns 30 quil\u00f3metros at\u00e9 ao porto. Quase 13h e ok. Vamos l\u00e1 enfrentar a bicicleta sem trav\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1-de ser assim t\u00e3o mau. O almo\u00e7o demora. A hora est\u00e1 quase a esgotar-se. O Jurandir, dono do restaurante, oferece caju da casa, manga e apricot para levar para a viagem e pede, tal como em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, para n\u00e3o me esquecer de o incluir na minha hist\u00f3ria pela Amaz\u00f3nia. D\u00e1-se ao pedal, sob um calor t\u00f3rrido e, em menos de 5 minutos, a Pousada parece que apareceu mais r\u00e1pido. O autocarro aparece \u00e0 hora marcada. Est\u00e1 com lota\u00e7\u00e3o esgotada. Sobram dois lugares incertos. Compra-se queijo do Maraj\u00f3 (de b\u00fafula) antes de embarcar. H\u00e1 caju para vender. Do Maraj\u00f3 at\u00e9 Bel\u00e9m seria, desta vez, 4h30 de barco, lento, com Darcy Ribeiro no colo e \u201cO Povo Brasileiro\u201d c\u00e1 dentro, do barco, de mim, desta viagem\u2026<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>03\/10 \u2013 Dia 47 <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">A tirania das 7h badala (muitas vezes ouvir\u00e3o falar dela). H\u00e1 um calor intenso que se sente no ar que, noutras ocasi\u00f5es, denunciaria que seria certamente mais tarde. \u00c0s 7h n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que esteja todo este calor. Est\u00e1! Os olhos amolecidos resguardam-se como quem diz: \u201c\u00c9 cedo de mais para que queiras que n\u00f3s trabalhemos para ti. Assim n\u00e3o vamos ver como queres\u201d. Eles ainda est\u00e3o assim, lentos de sono, com aquele calor febril de cansa\u00e7o. A Cris j\u00e1 espera no sof\u00e1. Acordou \u00e0s 5h30. Sem pestanejar ou olhos febris traidores. Na Vila do Pesqueiro acorda-se cedo. Quem vive em terra de pescadores, mesmo que n\u00e3o o seja, habitua-se a s\u00ea-lo um bocadinho no sono, pelo menos: que madruga, ainda que se deite tarde. E a mar\u00e9 j\u00e1 est\u00e1 baixa.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">N\u00e3o conseguiremos ir de canoa at\u00e9 \u00e0 Vila do C\u00e9u pelo igarap\u00e9. Temos de ir pela praia. Afinal acordou-se tarde. O despertador n\u00e3o foi tirano em pleno, mas sim maquiav\u00e9lico: despertas cedo para massacrar o corpo, mas n\u00e3o permites que se cumpra o objectivo! Assim cansas o inimigo pela frustra\u00e7\u00e3o. Passamos de canoa regional para a Vila do C\u00e9u. Enterramos os p\u00e9s na areia numa caminhada de 20 minutos entre sementes secas trazidas pelo mar e restos de coco. Vila do C\u00e9u \u00e9 uma comunidade esquecida. H\u00e1 muitos. \u00c9 estat\u00edstica silenciosa. A luz chegou h\u00e1 um ano, mas n\u00e3o h\u00e1 saneamento b\u00e1sico e os po\u00e7os no Ver\u00e3o secam. A popula\u00e7\u00e3o chega a passar sede. Esta \u00e9 uma realidade numa das regi\u00f5es mais alagadas do mundo. Hora de pescar. E de comer c\u00f4co encontrado na \u00e1gua que a Cris cortou, puro, branco por dentro e delicioso. A vela j\u00e1 est\u00e1 ao vento&#8230; Estamos de regresso \u00e0 Vila do Pesqueiro. Vamos pescar raia. Ele lan\u00e7a a tarrafa e o fio. N\u00e3o vem nada. Mais tarde aparece uma raia. O pescador devolve-a ao rio. Diz que antigamente a Vila de Pesqueiro era mais avan\u00e7ada no rio. Agora recuou. As estacas que vemos na praia s\u00e3o o que restou de uma casa que era de um portugu\u00eas, conta. \u201cEle tinha aqui uma pequena loja. J\u00e1 se foi. O filho dele ainda mora aqui, mas n\u00e3o sei onde\u201d, diz. Ao fim do dia, o rio traz sementes, caro\u00e7os, cocos, galhos secos e lixo que os barcos v\u00e3o deixando: garrafas de pl\u00e1stico, garrafas de lubrificantes, sacos pl\u00e1sticos, e peda\u00e7os de vidro, cordas, redes\u2026 \u201c\u00c1s vezes fazemos um mutir\u00e3o com as crian\u00e7as, para tirar algum lixo da praia e consciencializ\u00e1-las sobre a import\u00e2ncia da preserva\u00e7\u00e3o do lugar onde vivem\u201d, diz Cristina Penante, que mora na regi\u00e3o e \u00e9 uma das porta-vozes do projecto VEM de ecoturismo comunit\u00e1rio que a empresa Turismo Consciente de S\u00e3o Paulo desenvolve na Vila, em parceria com a Esta\u00e7\u00e3o Gabiraba. O objectivo \u00e9 valorizar os saberes e tradi\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o, para que n\u00e3o percam o que de mais rico t\u00eam: a cultura local que est\u00e1 nos poros das gentes dali.?\u00c9 hora de almo\u00e7o. O calor intenso m\u00f3i o corpo. A areia escalda os p\u00e9s. \u00c9 preciso arranjar uma sombra r\u00e1pido. H\u00e1 abutres na orla. Cheira a peixe. A espinha de uma raia de respeito jaz sobre uma po\u00e7a que o rio esqueceu e os bancos de areia aprisionaram. H\u00e1 relva sobre a areia. As ovelhas pastam na praia. As palafitas est\u00e3o adormecidas com o calor. A vida est\u00e1 l\u00e1 dentro a descansar nas redes.<\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">O esparguete de camar\u00e3o que a sogra da Cris preparou com molho branco sacia o est\u00f4mago. O sumo de caju (o cajueiro est\u00e1 mesmo em frente a mim) sacia a sede. Uma hora depois apanhamos boleia at\u00e9 Salvaterra, do outro lado do rio. A Cris acompanha-nos. A balsa vai cheia. Cami\u00f5es vazios que vieram abastecer Soure de cerveja. 15 minutos de travessia. Uma pickup aumenta o volume do r\u00e1dio. Ouve-se \u201cAx\u00ea\u201d , o estilo musical caracter\u00edstico do nordeste brasileiro e que consagrou cantoras como Ivete Sangalo. Do outro lado, j\u00e1 em Salvaterra, os cami\u00f5es levam escondidos passageiros clandestinos que se puseram \u00e0 socapa nas plataformas vazias para apanhar uma boleia. A nossa deixa-nos na Pousada Boto, com v\u00e1rios apartamentos de madeira \u2013 outrora devem ter sido um sucesso, hoje o restaurante n\u00e3o funciona; e os apartamentos de madeira precisam de umas obras.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">\u00c0 tarde, tentamos ir \u00e0 comunidade Quilombola de Bacabal, a cerca de 10 quil\u00f3metros da cidade. Quilombola significa ser descendente de escravos, que fugiam do trabalho for\u00e7ado e se escondiam na mata, formando o quilombo. A\u00ed puderam manter as tradi\u00e7\u00f5es, a liberdade e respirar. O n\u00famero de telem\u00f3vel que tenho para tentar ir l\u00e1 (ainda hoje) n\u00e3o atende. Insistimos. Quem atende j\u00e1 n\u00e3o mora mais naquela comunidade \u2013 a mais tradicional da regi\u00e3o. Mudou-se para outra, tamb\u00e9m quilombola, porque a mulher \u00e9 de l\u00e1. Hoje n\u00e3o \u00e9 dia de visitas, n\u00e3o haver\u00e1 ningu\u00e9m para falar sobre a hist\u00f3ria da comunidade. Mas a irm\u00e3 dele ainda mora por ali e pode falar com a l\u00edder da comunidade para nos receber. Arrancamos. Negociamos com o taxista que a Cris conhece e vinte minutos depois estamos na Comunidade Quilombola de Bacabal. Pela estrada de terra (\u201cQuando chove fica intransit\u00e1vel e \u00e9 muito dif\u00edcil as comunidades conseguirem ir \u00e0 cidade\u201d, diz o taxista) vemos animais mortos, abutres, casas de madeira e tecidos esfiapados ao vento, lixo.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Bacabal j\u00e1 n\u00e3o mant\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o das festas dos antepassados. Hoje \u00e9 s\u00e1bado. Haver\u00e1 festa \u00e0 noite, e o que ouvimos \u00e9 o technobrega: o ritmo que enfeiti\u00e7a todo Par\u00e1. Como explica a minha amiga Ana Cl\u00e1udia Bastos: \u201c\u00c9 uma grande resist\u00eancia \u00e0 ind\u00fastria fonogr\u00e1fica\u201d. Os Dj\u00b4s produzem m\u00fasicas a um ritmo alucinante: juntam m\u00fasicas internacionais conhecidas: tipo as Britney Spears da vida; e em forro; e remisturam com o ritmo do brega e batidas electr\u00f3nicas. A preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 traduzir, mas inventar uma nova letra para a melodia e adaptar. O marido da Cris, por exemplo \u00e9 DJ e tem as pastas de m\u00fasicas divididas por m\u00eas. Explorar o que ele tem no computador por cada pasta \u00e9 um desafio que pode demorar dias. Ele grava um CD para n\u00f3s. Pura experi\u00eancia antropol\u00f3gica! Genial!<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Voltamos de Bacabal e o jantar resume-se a uns p\u00e3es com queijo fiambre e um suco remeloso com excesso de a\u00e7\u00facar de goiaba (branca???). O sono vem cedo, mas seria interrompido por um h\u00f3spede inesperado de madrugada. Uma barata voadora que resolve repousar, bem no momento em que se acende a luz, do meu lado. Passo a almofada por cima para a isolar e dobra-se o len\u00e7ol onde ela est\u00e1. Ningu\u00e9m tem coragem de ouvir aquele \u201ccrunch\u201d quando ela morre, por isso melhor isol\u00e1-la no len\u00e7ol onde j\u00e1 pisou. Tir\u00e1-lo de vez e voil\u00e1, reinventar um len\u00e7ol e outra almofada para dormir e esquecer que ela est\u00e1 a tentar libertar-se das amarras do len\u00e7ol criminoso no ch\u00e3o da casa de banho com a mochila por cima a fazer de peso\u2026 O importante \u00e9 adormecer r\u00e1pido porque o corpo quer mais do que o pensamento.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>02\/10 \u2013 Dia 46 <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">\u00c9 cedo. As sete. Arrumar as mochilas e p\u00f4-las a marchar. A Cris j\u00e1 espera na Pol\u00edcia Militar de Soure. Quero saber, afinal, que hist\u00f3ria \u00e9 essa da pol\u00edcia domar b\u00fafalos (h\u00e1 quatro ra\u00e7as: Murrah, Jafarabadi, Mediterr\u00e2neo, Carabao) desde tenra idade, para ajudarem a policiar a regi\u00e3o. \u201cEles s\u00e3o animais impressionantes e chegam onde nenhum outro consegue chegar por se darem muito bem na \u00e1gua\u201d, diz o cabo Viteli do 8\u00ba Batalh\u00e3o da Pol\u00edcia Militar de Soure. \u201c\u00c9 um animal adequado para \u00e1reas alagadas, como esta, sobretudo no combate ao roubo de gado na regi\u00e3o\u201d. Colegas de outros batalh\u00f5es acharam que esta hist\u00f3ria era uma piada, at\u00e9 porque \u201cn\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil domar um b\u00fafalo\u201d. Come\u00e7a \u201cquando ele \u00e9 pequeno\u201d, conta Vitelli, numa rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a entre \u201co domador e o animal\u201d. S\u00f3 que \u201cquem nasce com sangue marajoara\u201d j\u00e1 nasce a domar b\u00fafalos, brinca.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">A Ilha do Maraj\u00f3 \u00e9 a maior ilha fluviomarinha do mundo e tem o maior rebanho de b\u00fafalos do Brasil (600 mil cabe\u00e7as). A paisagem muda muito de acordo com as esta\u00e7\u00f5es do ano, por isso, os animais s\u00e3o usados como o principal meio de transporte. Conta-se que eles ter\u00e3o chegado \u00e0 ilha no s\u00e9culo XIX, quando um navio que os transportava e seguia para a Guiana Francesa, naufragou ao largo.?J\u00e1 no centro de Soure, s\u00e3o cinco minutos a p\u00e9 at\u00e9 \u00e0 oficina do senhor Carlos, o artes\u00e3o que ainda guarda as tradi\u00e7\u00f5es do artesanato marajoara, um legado ind\u00edgena, que Carlos guarda originalmente da fam\u00edlia. Ele hoje n\u00e3o est\u00e1, mas a esposa discorre o discurso habitual para quem visita a simples oficina que preserva todo o trabalho artesanal. \u201cCada pe\u00e7a tem uma hist\u00f3ria\u201d, diz. \u201cOs desenhos significam, coragem e for\u00e7a, subtileza, felicidade, sa\u00fade\u201d. As m\u00e1scaras, por exemplo, eram \u201cusadas para protec\u00e7\u00e3o e hoje devem ser colocadas em casas\u201d.<\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Conseguimos boleia para a Vila de Pesqueiro, onde a Cris mora e onde haver\u00e1 guarida esta noite. De casa dela at\u00e9 ao peixe grelhado do almo\u00e7o s\u00e3o uns 15 minutos a torrar ao sol. A praia cheia de palmeiras, \u00e1gua l\u00edmpida e um arenal imenso \u00e9 demasiado perfeitinha para ser real. Est\u00e1 muito vento, quente. As cadeiras querem voar. Os camar\u00f5es mal se mant\u00eam no prato, o balde de Schin quase tomba. A maioria da popula\u00e7\u00e3o ainda vive da pesca na regi\u00e3o. O projecto de ecoturismo do turismo Consciente do qual a Cris faz parte \u00e9, confessa, \u201cuma importante fonte de renda para algumas fam\u00edlias\u201d: recebem em casa um n\u00famero reduzido de pessoas, interessadas em saber como vivem, as riquezas e os segredos da comunidade. Um desses segredos, apenas para est\u00f4magos e olhar mais resistentes \u00e9 o turu: uma minhoca gosmenta que se extrai das \u00e1rvores secas do mangue, rachando o tronco e seguindo os veios da madeira, sulcados pela minhoca. A \u201cminhoca\u201d \u00e9 um manjar muito apreciado na regi\u00e3o, com sabor semelhante \u00e0 ostra, dizem. O meu est\u00f4mago n\u00e3o foi t\u00e3o resistente quanto o olhar curioso. Come-se com sal, bem cozinhada, e como caldo. \u201cDiz-se que tem muitas vitaminas e que \u00e9 bom para o c\u00e9rebro\u201d. O nosso anfitri\u00e3o conhece-lhe outro segredo: \u201cO turu \u00e9 considerado o viagra da regi\u00e3o. Ali\u00e1s no mercado, j\u00e1 ningu\u00e9m o vende como turu mas como viagra\u201d, conta.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">O dia come\u00e7a a perder-se no horizonte. E na Vila de Pesqueiro anoitece cedo. Nesse dia, \u00e0 noite, apesar de estar sem rede de telem\u00f3vel, e sem internet, saberia que o Rio de Janeiro seria a cidade anfitri\u00e3 dos Jogos Ol\u00edmpicos em 2016. A TV tem omnipresen\u00e7a\u2026<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>01\/10 \u2013 Dia 45.<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> O Hotel continua com ar de cen\u00e1rio-fantasma. Mais de 36 apartamentos vazios. J\u00e1 teve dias melhores. Quando abriu deve ter sido o principal da ilha. S\u00e3o quase 11h e a \u00fanica forma de chegar dali ao centro de Soure \u00e9 caminhar por uma hora sob sol intenso, ou chamar um motot\u00e1xi que me deixa onde eu quiser por 3 reais (cerca de um euro). O calor \u00e9 infernal e n\u00e3o corre sequer uma leve brisa para atenuar a temperatura. O tecnhobrega ouve-se em todo o lado. Na pra\u00e7a principal de Soure ele sai das colunas de som de uma loja de material electr\u00f3nico.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">O melhor restaurante da cidade (o mais delicioso, dizem) est\u00e1 em obras. O \u00fanico que est\u00e1 aberto tem peixe na chapa, farinha, arroz e CERPA. Est\u00e1 bom assim! Ligo \u00e0 Cris. Depois de almo\u00e7o vamos conhecer o curtume da fam\u00edlia. Ela ser\u00e1 a nossa anfitri\u00e3 por aqui, numa parceria com o projecto de Ecoturismo de base comunit\u00e1ria que a Fofa do Turismo Consciente, de S\u00e3o Paulo, tem na regi\u00e3o, articulando com a Esta\u00e7\u00e3o Gabiraba. Hoje, toda a fam\u00edlia da Cris, os Penante, ainda trabalham no curtume de pele de b\u00fafalo. Fazem as selas originais para muitas fazendas, sand\u00e1lias, carteiras, chap\u00e9us.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">A cultura do b\u00fafalo \u00e9 muito forte na regi\u00e3o e o animal, domesticado desde cedo, al\u00e9m de ser alimento regional \u2013 carne, leite, queijo, manteiga \u2013 \u00e9 o meio de transporte mais utilizado pela maioria dos fazendeiros, pelos correios, e pela Pol\u00edcia Militar. Dali seguimos para a Fazenda Araruna, onde se criam b\u00fafalos e onde a dona Am\u00e9lia produz tudo o que o b\u00fafalo oferece. Ela \u00e9 tamb\u00e9m a fundadora do Grupo de Carimbo Cruzeirinho, uma dan\u00e7a t\u00edpica da regi\u00e3o, inspirada nas culturas afro, ind\u00edgena e no folclore portugu\u00eas. Mas o Carimbo daqui \u00e9 diferente do Carimbo de S\u00e3o Lu\u00eds e de Marapanim. \u00c9 mais lento e chega a confundir-se com o Lundu, que o Grupo Cruzeirinho tamb\u00e9m dan\u00e7a. Regressa-se a p\u00e9 para o Hotel. Ao fim do dia o calor amenizou e a caminhada de uma hora deixa desvelar a import\u00e2ncia da televis\u00e3o em todas as casas (ali\u00e1s uma constante em todo o Brasil. Os piores barracos, com as mais prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de habitabilidade, t\u00eam a caixa m\u00e1gica no centro da sala).<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">\u00c0s 20h, j\u00e1 noite, o Grupo Cruzeirinho come\u00e7a o ensaio, que s\u00f3 come\u00e7aria perto das 22h. Am\u00e9lia deixa-nos no Hotel, depois\u2026 amanh\u00e3 a tirania das 7h singrar\u00e1 e uma surpresa no quarto. Uma perereca maior que o normal no WC. Aquela pele a parecer escama de peixe (n\u00e3o se sabe muito bem por onde ela ter\u00e1 entrado, j\u00e1 que o WC \u00e9 todo vedado e estava fechado) n\u00e3o deixa uma vis\u00e3o agrad\u00e1vel. Depois ela resolve explorar os meandros do quarto em abundantes saltos irritantes, r\u00e1pidos e imprevis\u00edveis. H\u00e1 uma perereca desaparecida no quarto\u2026 Maravilha!<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>30\/09 \u2013 Dia 44. <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">6h da matina \u00e9 demasiado cedo para se apanhar um barco. Melhor o das 15h, que teria uma ondula\u00e7\u00e3o forte certa, faria o barco balan\u00e7ar numa dan\u00e7a concertada esquerda-direita durante uma hora, e um enjoo fulminante que deixa e em suspenso a ideia: \u201ce se ele virar?\u201d. (Talvez tivesse sido melhor apanhar o da matina que o da tarde seria calv\u00e1rio certo). A esta\u00e7\u00e3o das docas \u00e9 uma \u00e1rea degradada, perigosa, e com olhares suspeitos.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Na parede uma fotoc\u00f3pia com a imagem de um homem. L\u00ea-se: \u201cProcura-se! Matou fulano de tal no dia tal e fugiu. D\u00e1-se recompensa a quem encontrar\u201d. Os olhos ficam arregalados. Depois da primeira percep\u00e7\u00e3o dar uma certa dist\u00e2ncia ao que est\u00e1 a ler, a segunda, a mais cauta e ponderada, digere analiticamente a ideia para a pesar e processar como deve de ser: procurado por assassinato. Depois de passar pelo detector de metais do porto das docas para o embarque, centenas de pessoas come\u00e7am a apressar-se para o barco que far\u00e1 a travessia: Bel\u00e9m \u2013 Porto de Camar\u00e1, na Ilha do Maraj\u00f3. Barco grande, prec\u00e1rio, insalubre, com bancos de esponja falsa que endureceria, por tr\u00eas horas o nosso assento natural. S\u00e3o bancos \u00fanicos, em fila, escuros e desconfort\u00e1veis. Dois andares, e h\u00e1 um caix\u00e3o que tamb\u00e9m vai embarcar. O homem de olhar suspeito \u00e0 entrada do porto tamb\u00e9m embarca e vende uma pe\u00e7a de artesanato em ferro. Ele passaria, obcecadamente, dezenas de vezes pelos mesmos passageiros e a fazer a mesma pergunta: \u201cn\u00e3o quer comprar?\u201d.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Ao fundo, perto da proa, uma mulher come\u00e7a a gritar a cada balan\u00e7o do barco: a embarca\u00e7\u00e3o parece ter um \u00edman que a mant\u00e9m equilibrada ao centro depois de ser sacudida, violentamente, para um lado e para outro. Seria assim, durante demasiado tempo. E a mulher grita e enjoa. H\u00e1 uma outra que se ri do epis\u00f3dio. \u00c9 amiga dela. Vai-lhe buscar \u00e1gua (traz uma coca-cola para ela) e olha para tr\u00e1s a rir-se. Volta com a \u00e1gua e antes de se sentar, olha no vazio a rir-se. Um homem d\u00e1-lhe \u00e1lcool para cheirar. A outra mulher ri-se, sempre. A Televis\u00e3o passa um filme de com\u00e9dia rom\u00e2ntica.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Come\u00e7a a chover. Os marinheiros deslizam as lonas para que a \u00e1gua n\u00e3o entre. O Barco balan\u00e7a, balan\u00e7a. E ainda falta tanto para o porto Camar\u00e1. Ao redor a vegeta\u00e7\u00e3o de ilhas imensas e rio apressado. H\u00e1 um homem que dorme a cent\u00edmetros de mim. As havaianas s\u00e3o as almofadas, e os p\u00e9s de fora balan\u00e7am de cada vez que o rio empurra o barco. Ferrado como beb\u00e9 n\u00e3o d\u00e1 por nada.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Tr\u00eas horas e meia depois, no Porto Camar\u00e1, h\u00e1 pequenas carrinhas que querem engolir passageiros at\u00e9 Soure. Queremos a do senhor Edgar. S\u00e3o 30 quil\u00f3metros at\u00e9 Salvaterra, onde quase ningu\u00e9m fica. Depois o \u201cmicro-\u00f4nibus\u201d entra na balsa de r\u00e9 e ploc, nem sentimos que a terra j\u00e1 se fez Soure. O Edgar deixa-nos \u00e0 porta do Hotel Ilha do Maraj\u00f3. Assim de repente, parece um Hotel-Fantasma, como se os \u00fanicos h\u00f3spedes tivessem acabado de chegar, depois de um farto per\u00edodo de abstin\u00eancia. Pede-se a especialidade da casa: bife de b\u00fafalo, com queijo da b\u00fafula, cuja dose \u201cd\u00e1 para duas pessoas se comerem mais ou menos\u201d. Quase uma hora depois, e uns goles de Guaran\u00e1 e n\u00e3o se sabe se aquela amostra gourmet \u00e9 uma entrada ou o prato principal, que no final ainda pesaria no bolso. S\u00f3 que num raio de cinco quil\u00f3metros (e onde o \u00fanico transporte \u00e9 o motot\u00e1xi) n\u00e3o h\u00e1 mais nada\u2026 O est\u00f4mago ronca na hora de ir para a cama. N\u00e3o se sabe se de fome, se de sono.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>29\/09 \u2013 Dia 43. <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">Ainda em Bel\u00e9m. Compras de \u00faltima hora. Passar as fotos e o \u00e1udio para o HD. Amanh\u00e3 \u00e9 dia de Ilha do Maraj\u00f3 ( a palavra vem de Mbar\u00e1-y\u00f3 do tupi que significa barreira do mar) e o dia ter\u00e1 3 horas e meia de travessia de barco.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>28\/09|Dia 42 &#8211; <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">Preparativos para a maior festa religiosa de Bel\u00e9m: O C\u00edrio de Nazar\u00e9. 18h: h\u00e1 encontro marcado na Bas\u00edlica. At\u00e9 l\u00e1, a habitual, quando h\u00e1 algum tempo livre, escrita em dia. E ainda, preparativos para a Ilha do Maraj\u00f3&#8230;<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>27\/09|Dia 41 &#8211; <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">Regresso a Bel\u00e9m. Acordar tarde e com o som do rio, a escassos metros da janela do quarto. Malemol\u00eancia (essa palavra que s\u00f3 persiste ser folheada no portugu\u00eas do Brasil e resume tanto) do calor, cansa\u00e7o acumulado. Isto de ser &#8220;homeless&#8221; deixa as suas mazelas.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>26\/09|Dia 40 &#8211;<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> Ilha do Mosqueiro, a 70 quil\u00f3metros de Bel\u00e9m. Os pais do Philippe t\u00eam uma casa de veraneio nessa ilha de rio que parece mar. Achou que dois portugueses abandonados precisavam de um tratamento de choque de descanso de churrasco, Brahma, tapioca, gelados de cuxi e bacuri , em vers\u00e3o dieta imprescind\u00edvel.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>25\/09|Dia 39\u00a0 &#8211; <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">Mangal das Gar\u00e7as ao fim do dia. Dia de trabalho e partida para a Ilha do Mosqueiro com Phillippe e filhos: Jo\u00e3o e Ana Lu\u00edsa. Enfrentamos o tr\u00e2nsito de fim-de-semana \u00e0 sa\u00edda de Bel\u00e9m. Mas quando chegamos \u00e0 Ilha do Mosqueiro, a Lurdes, afinal n\u00e3o estava na casa para nos receber. E o P. n\u00e3o tinha a chave. Decidimos voltar no dia seguinte de manh\u00e3 cedo. Mais uma hora de regresso a B.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>24\/09|Dia 38 &#8211; <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">Dia de Museu Em\u00edlio Goeldi. Visita interrompida pelo dil\u00favio. Dia de trabalho. Dobar umas linhas. <\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>23\/09|Dia 37 &#8211; <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">Dia de trabalho na Ecopousada Miriti. Site em dia.<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong> <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">E mais uns quil\u00f3metros de letras nas estradas do Word.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>22\/09|Dia 36<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> -Dia de trabalho na Ecopousada Miriti. A Priscilla est\u00e1 a mudar as plantas de lugar e a completar a relva da entrada com o Gil.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>21\/09|Dia 35 &#8211; <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">Acordar em Bel\u00e9m. O pequeno-almo\u00e7o j\u00e1 sabe a casa. J\u00e1 estava com saudades da fam\u00edlia Barata e Bastos. Colch\u00e3o fofo e \u00e1gua-quente. O calor das palavras. As hist\u00f3rias. E os doces da Nice que, agora, s\u00f3 olho de longe para recuperar desta alimenta\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de uma semana na terra de feij\u00e3o-arroz-e-carne.\u00a0 Hoje \u00e9 dia de p\u00f4r a escrita, o sono e a leitura em dia.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>20\/09|Dia34 &#8211; <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">Ansiedade por sair desta terra tensa: Marab\u00e1. Ou como diz o taxista \u00e0 chegada em Bel\u00e9m. &#8220;Marabala&#8221; a terra do faroeste, dos pistoleiros, das grandes fazendas, dos grileiros, jagun\u00e7os e de gente que luta pela terra, porque \u00e9 de l\u00e1 e sofre por ela. Gente despojada, humilde, sofrida.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>19\/09|Dia 33 &#8211;<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> O M. atrasou-se um pouco. Esteve a tratar de outros assuntos importantes. Sa\u00edmos tarde para o acampamento. Ainda vamos buscar G. que veio de Palmares h\u00e1 duas semanas. Comemos algo na vila e estamos a caminho do Acampamento do MST. Gente com os olhos cansados, muito; desconfiada; vida amorda\u00e7ada. A press\u00e3o e o sofrimento pela luta pela terra deixam marcas como estas e um medo colectivo. Amea\u00e7as, companheiros baleados. O I. j\u00e1 levou seis balas, est\u00e1 a recuperar-se. Outro I. j\u00e1 fez trabalho escravo mas conseguiu fugir. E a dona A. preparou um saco de amendoins para oferecer. Sa\u00edmos tarde de l\u00e1. A estrada \u00e9 p\u00e9ssima, sem luz. Mas M. conhece-a bem. J\u00e1 n\u00e3o sabe quantas vezes a rodou, v\u00e1rias vezes por semana, h\u00e1 anos. H\u00e1 um carro capotada na berma da estrada. Luzes. M. salta do carro para tentar ajudar, mas n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m no carro. De repente saltam dois homens do meio do mato. Passa um cami\u00e3o. Uma moto com um casal. M. e G. correm para a nossa &#8220;pickup&#8221;, arrancamos violentamente sem olhar para tr\u00e1s.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>18\/09|Dia 32 &#8211; <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">Entrevistamos Me. e G. sobre esta luta sofrida pela terra. C. vai estudar para Coimbra, fazer um doutoramento sobre quest\u00f5es agr\u00e1rias. Talvez seja hoje que viajaremos com M. para o acampamento. Mas a meio da manh\u00e3 n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel. Ele tem outras prioridades antes de se fazer \u00e0 estrada. Amanh\u00e3, com certeza. E mais um dia de espera.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>17\/09|Dia 31 &#8211; <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">Dia de imensa espera pelo telefonema que n\u00e3o vem. A fome aperta e ao redor s\u00f3 lojas comerciais. Na grande Avenida da &#8220;Nova Marab\u00e1&#8221; h\u00e1 dezenas de lojas de pneus, mec\u00e2nicos, recauchutagem, quatro bombas-de-gasolina seguidas, insalubres, esgoto a c\u00e9u aberto e nada para comer. H\u00e1 uma loja de roupa de luxo, ao lado de um supermercado popular e churrasco de frango. S\u00f3<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>16\/09|Dia 30<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> &#8211; A Funai n\u00e3o confirma ida \u00e0 aldeia. Lula mudou a agenda. \u00c0 boca pequena diz-se que &#8220;por raz\u00f5es pol\u00edticas&#8221;. Mais um dia no &#8220;faroeste&#8221; que recebeu a primeira chuva de Setembro, trazendo vendaval, arrastando \u00e1rvores e chuva-dil\u00favio que revolve a terra vermelha em lama-lama-lama.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>15\/09|Dia29 &#8211; <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">O r\u00e1dio da casa do \u00cdndio tenta contactar Aikib\u00f3ro que nos confirma transporte para a aldeia. Algu\u00e9m diz que n\u00e3o. O p\u00f3 de Ouril\u00e2ndia\u00a0 do Norte n\u00e3o assenta. O garimpo h\u00e1 muito se foi, mas a heran\u00e7a da terra ainda o \u00e9. Sem lei.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>14\/09|Dia 28 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> Tudo \u00e9 demasiado lento, por agora. Transportes que saem sob lota\u00e7\u00e3o, sem hor\u00e1rios. Esperamos que a Funai nos confirme transporte para a aldeia ind\u00edgena, amanh\u00e3.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">&#8220;Duvido&#8221;, diz C.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Lava-se roupa. Passa-se imagens para arquivo. Mais um dia de espera na terra seca, \u00e1rida de Ouril\u00e2ndia do Norte. Cidade-fantasma com poeira levantada, calor t\u00f3rrido, insuport\u00e1vel, sufocante. E muitos cami\u00f5es que transportam gado.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>13\/09|Dia 27 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> Seis horas da manh\u00e3. A rodovi\u00e1ria de Xinguara fervilha. Sem sombra o solo arde, o calor queima. A carrinha que sairia \u00e0s 06h30 saiu h\u00e1 dez minutos. \u201cVeio de Marab\u00e1 e como vinha lotada o motorista foi -se embora mais cedo\u201d, diz o respons\u00e1vel pela empresa.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>12\/09|Dia 26 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> Bel\u00e9m \u2013 Marab\u00e1: uma hora de voo. O autocarro partiria \u00e0s 15h30 da rodovi\u00e1ria. Afinal ser\u00e1 entre as 16h e 17h.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">&#8211; Tem ar condicionado?<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">&#8211; \u201cQuando n\u00e3o est\u00e1 quebrado tem\u201d, responde o homem do guich\u00ea.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">&#8211; \u201cE esse que vem de Bel\u00e9m?\u201d<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">&#8211; \u201cAh! Esse est\u00e1 com problemas.\u201d<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Caf\u00e9 e sandu\u00edche para enganar a fome.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Carrego o telem\u00f3vel e o cr\u00e9dito n\u00e3o entra. Venho a saber que entrou noutro n\u00famero de telem\u00f3vel. \u00c0s minhas custas, algu\u00e9m lucrou.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">&#8211; \u201cO seu n\u00famero de celular deve ter sido clonado\u201d, diz a empregada de mesa.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">&#8211; \u201cQuerida, e como vamos resolver se voc\u00ea me vendeu um cart\u00e3o de carregamento de celular com n\u00famero de s\u00e9rie viciado?\u201d<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">&#8211; &#8220;N\u00e3o sei n\u00e3o. Ligue para a TIM, eu n\u00e3o tenho nada que ver com isso&#8221;.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">17h00 \u2013 o autocarro chegou com problemas. Vai ter de ir para a garagem.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">N\u00e3o h\u00e1 previs\u00e3o de sa\u00edda e n\u00e3o h\u00e1 mais nenhum para substituir o \u201c\u00f4nibus quebrado\u201d.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">O homem do guich\u00ea insiste que n\u00e3o nos deve satisfa\u00e7\u00f5es. Acha que o &#8220;\u00f4nibus dever\u00e1 sair\u201d dali a uma hora.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">O meu problema do cr\u00e9dito que n\u00e3o entrou n\u00e3o est\u00e1 resolvido. A gerente do bar onde comprei insiste que o problema n\u00e3o \u00e9 dela. Tenho cinco empregadas a olhar para mim, de esguelha. E continuo ao telefone com a minha operadora para resolver o problema. Da primeira vez que liguei para\u00a0 o servi\u00e7o atende-me uma mulher a dizer : \u201cOi, amor\u201d.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Ok, realmente o cart\u00e3o deve ter sido clonado, ou a minha operadora est\u00e1 com problemas no servi\u00e7o. Insisto com a gerente. Argumento num bem disfar\u00e7ado &#8220;portugu\u00eas do Brasil&#8221;. Ela acaba por me devolver o dinheiro.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">O autocarro continua sem previs\u00e3o para arrancar para Ouril\u00e2ndia do Norte. A \u00faltima carrinha at\u00e9 meio do caminho, em Xinguara, acabou de sair h\u00e1 um minuto; e ainda vai passar pelo outro terminal rodovi\u00e1rio. H\u00e1 esperan\u00e7a de que volte para tr\u00e1s? Afinal, n\u00e3o \u00e9 terra em lei? Conseguimos convencer a mulher do guich\u00ea que queremos \u201cmuito\u201d ir para Xinguara e que precisamos de tr\u00eas lugares. S\u00e3o precisamente os que a &#8220;van&#8221; (a carrinha) ainda n\u00e3o preencheu. Pedimos o dinheiro de volta na empresa do &#8220;\u00f4nibus quebrado&#8221;. A carrinha voltou para nos vir buscar e seguimos pela estrada meio-asfalto, meio-terra batida, com queimadas e gado ao longo de um cen\u00e1rio desmatado.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">22h. Chegada a Xinguara. Pernoite por aqui. Op\u00e7\u00f5es para dormir: uma pousada duvidosa inacabada com obras. Cheiro pestilento nos quartos. O dono insiste que n\u00e3o vamos encontrar melhor. Eu e a C\u00e9lia atravessamos a rua. H\u00e1 outra pousada l\u00e1 ao fundo. O cen\u00e1rio pode sempre piorar: esta parece uma cela solit\u00e1ria. Tem marcas de mosquitos e outros bichos na parede. Cama encafuada num cub\u00edculo. Casa de banho (era mesmo?) com a porcelana tingida de mijo e chuveiro (seria mesmo?) com a laje manchada de terra. \u00c0 terceira, sabemos, \u00e9 sempre de vez: a pousadinha seguinte seria mais honesta. \u00c9 mesmo por aqui!<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>11\/09|Dia 25 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> Em Bel\u00e9m, na ciranda do trabalho e dia de revis\u00e3o de mantimentos em falta. As mochilas rebentaram. Al\u00e7as irrecuper\u00e1veis e fechos cansados, j\u00e1.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>10\/09|Dia 24 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> 7h da manh\u00e3. O barco sai para Fortalezinha, comunidade de pescadores a 40minutos de barco da Ilha do Algodoal. L\u00e1 encontro o peda\u00e7o de uma nota de cruzados. H\u00e1 botos no caminho. Caminhada sob sol t\u00f3rrido. Os ombros desta vez ficam queimados. 12h voltamos a Algodoal. Tenho uma hora para ir \u00e0 Pousada Marhesias (20 minutos de caminhada desde o porto de Mamede \u2013 n\u00e3o esquecer o sol t\u00f3rrido) e voltar para apanhar o \u00faltimo barco para Marud\u00e1 e ainda hoje chegar a Bel\u00e9m.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">13h15: chamaram uma carro\u00e7a. As malas e as costas e os ombros queimadas n\u00e3o suportariam o peso; e o tempo corre em areia fina na ampulheta. O barco est\u00e1 lotado. Cabem 32. Leva 45 pesssoas. Um grupo sorrateiro improvisado fez-se em p\u00e9 \u00e0 proa. Um pescador que viaja com a fam\u00edlia est\u00e1 preocupado. O motor parece estar em sofrimento a puxar.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">-\u201cEste barco est\u00e1 muito pesado\u201d, diz. E come\u00e7a a distribuir os coletes salva-vidas pelas filhas e esposa que coloca as m\u00e3os ao peito e reza sempre que o barco balan\u00e7a de mais. A \u00e1gua est\u00e1 a tr\u00eas palmos do barco. Se o vento estiver mais forte no canal a \u00e1gua vai entrar.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">O pescador fica agoniado. Todos est\u00e3o em sil\u00eancio e olham para o meio do barco cheio de malas, sacolas e mochilas. O barco est\u00e1 pesado. Quase se engolfa demais na \u00e1gua\u2026Chegamos a Marud\u00e1. De imediato para o \u201cmicro-\u00f4nibus\u201d que nos levar\u00e1 numa viagem de tr\u00eas horas, em assentos apertados e mochilas no colo, ao som de m\u00fasica brega, sertaneja e duplas de vocais tipo Leandro e Leonardo. S\u00f3 p\u00e1ra para deixar e recolher passageiros. O sono vem. A cabe\u00e7a mergulha na mochila ao som de qualquer coisa. O sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 importante por agora.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>09\/09|Dia 23 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> 9horas.\u00a0 Caf\u00e9 e bolo de alguma coisa que n\u00e3o se percebe. Est\u00e1 bom assim. Muda-se as malas para a Pousada Marhesias. Conversamos com o Bergo, pintor, belenense e dono da pousada, junto com a esposa, Paula, descendente de portugueses. Bergo faz parte da Associa\u00e7\u00e3o de Preserva\u00e7\u00e3o Ambiental da ilha. H\u00e1 muitos problemas de lixo. Como dar destino a tanto que se produz por l\u00e1? Sa\u00edmos para fotografar. Temos de dar a volta no mangue para ir at\u00e9 \u00e0 ilha da Princesa. Os p\u00e9s enterram-se em areias movedi\u00e7as. A \u00e1gua sobe at\u00e9 \u00e0 cintura. A praia parece t\u00e3o perto, mas a caminhada \u00e9 des\u00e9rtica. \u00c1rida. O pescador passa com peixe no balde, apressado. Ao longe, estacas para pescar. Chegamos ao La Dune\u00b4s Drink onde est\u00e1 Jos\u00e9 Cristo. Mora na ilha \u201cdesde o in\u00edcio\u201d. Diz que at\u00e9 j\u00e1 falou com a Pricesa, a da praia. Um esp\u00edrito que guarda o arenal mais famoso de Algodoal. Brinca que ela est\u00e1 sentada na cadeira vazia que vemos em cima da duna. Come-se peixe. Bebe-se \u201csuco de goiaba\u201d. Galgamos a areia de novo, centenas de metros. E descobrimos como se chega at\u00e9 \u00e0 Lagoa da Princesa com \u00e1guas cor de merc\u00fario das algas. Ao regressar o p\u00f4r-do-sol j\u00e1 se esconde nas estacas ao longe, na \u00e1gua. H\u00e1 vegeta\u00e7\u00e3o enterrada na areia. A mar\u00e9 subiu. Para passar para o outro lado apenas a um real num pequeno barco.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>08\/09|Dia 22<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> &#8211; Ilha do Algodoal. A mar\u00e9 est\u00e1 baixa. O sono \u00e9 muito.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>07\/09|Dia 21 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> Curu\u00e7\u00e1 \u2013 Marud\u00e1. A Suani n\u00e3o nos quis deixar. Deu-nos boleia de Curu\u00e7\u00e1, onde fica a \u201cCasa da Virada\u201d do Instituto Peabiru onde trabalha, at\u00e9 Marud\u00e1 para apanhar o barco at\u00e9 \u00e0 Ilha do Algodoal. Saiu um \u00e0s 13h30 e levar\u00e1 apenas dois passageiros mais a tripula\u00e7\u00e3o. \u00c9 feriado da Independ\u00eancia, por isso o fluxo \u00e9 contr\u00e1rio ao que seguimos. O c\u00e9u fica cinzento. S\u00e3o 50 minutos de ondula\u00e7\u00e3o e vento forte. H\u00e1 um barco que navega do lado que acha piada ao facto de apenas irem dois passsageiros. Apesar do vento, da mar\u00e9 forte, e das ondas que teimam em entrar no barco ,quem vai ao leme da outra embarca\u00e7\u00e3o acha que n\u00e3o \u00e9 suficiente. E resolve aproximar-se ainda mais. Assim que a onda vem ele entra mais forte nela e manda-nos um banho salgado que molha as mochilas, o corpo, os \u00f3culos, os p\u00e9s, e at\u00e9 a irrita\u00e7\u00e3o. Sabemos que foi propositada a perip\u00e9cia, mas ok\u2026Depois disso afasta-se. E ri-se.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">J\u00e1 no porto de Mamede, na Ilha do Algodoal, saltamos para a areia. Procuramos pousada e ainda est\u00e1 tudo cheio. Esperamos improvisados na da Chilena onde a sombra n\u00e3o deixa d\u00favidas para n\u00e3o prosseguir. S\u00f3 \u00e0s 18h haver\u00e1 vaga. S\u00e3o 14h30. No frigor\u00edfico s\u00f3 restam dois sucos de caju e 4 fatias de bolo \u201cestragado\u201d, como se chama ao bolo de tapioca mal cozido. A fome pede isso, portanto. Duas horas depois haver\u00e1 vaga. Um cub\u00edculo b\u00e1sico partilhado com mosquitos, formigas e aranhas simp\u00e1ticas, sem luz na casa-de-banho: ah, eufemismo da palavra cub\u00edculo.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>06\/09|Dia 20 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> 7horas. Em Curu\u00e7\u00e1. Entrevista com o senhor Cristovam, que hoje regressa da pesca com o filho mais novo, o J\u00fanior. Conta-nos hist\u00f3rias de mar e peixe. E diz que sim. Pescar \u00e9 uma aventura, mas nada como &#8220;dantes&#8221;. As grandes empresas est\u00e3o &#8220;a dar cabo das esp\u00e9cies&#8221;. Ele \u00e9, ainda, um dos resistentes. De jeitinho artesanal, corpo atl\u00e9tico e olhar moreno.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">10h voltamos para a Casa da Virada, do Instituto Peabiru. Mel de abelhas nativas \u00e0 tarde, depois de almo\u00e7ar no senhor Mecenas: carne, frango, ou peixe? Pela terceira vez, peixe, por favor.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">\u00c0 fim da tarde, cerveja em Abade \u2013 essa comunidade onde, tamb\u00e9m, os Jesu\u00edtas andaram, ali no s\u00e9culo XVII, a \u201cevangelizar os povos da Amaz\u00f3nia\u201d.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">\u00c0 noite. Experi\u00eancia verdadeiramente antropol\u00f3gica. Aparelhagem: o Techno brega no seu melhor. Melody Ice com \u201cGatinha, voc\u00ea gosta mais de Red Label, ou Ice?\u201d. Alto e bom som, o dono do carro, com as colunas em alto som controla o volume com um comando enquanto est\u00e1 sentado na cal\u00e7ada.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>05\/09|Dia 19 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> A ilha da romana \u00e9 uma praia selvagem. E a dona rosa n\u00e3o mora mais aqui. Agora n\u00e3o h\u00e1 tanto peixe como dantes. \u201cAs grandes empresas est\u00e3o a roubar todo o nosso peixe\u201d, diz.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>04\/09|Dia 18 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> Depois de 20 mil caracteres a caminho de Curu\u00e7\u00e1, pertinho do Atl\u00e2ntico para ir \u00e0 Ilha da Romana.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>03\/09|Dia 17 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> Dia de hibernar para p\u00f4r a pena em dia\u2026<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>02\/09|Dia 16 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> Boa Vista do Acar\u00e1 com a Esta\u00e7\u00e3o Gabiraba, depois de partir do porto da Palha, nos arredores de Bel\u00e9m com direito a gastronomia local e banho-de-cheiro.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>01\/09|Dia 15 \u2013 <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">A actualizar site e nas lides do teclado para aquele bordado luso-brasileiro que se cose a palavras, com agulhas de pontua\u00e7\u00e3o\u2026<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\">\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>31\/08|Dia 14 \u2013 <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">Bel\u00e9m dia de labor\u2026<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>30\/08|Dia 13 \u2013 <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">Bel\u00e9m, no X\u00edcara da Silva<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>, <\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">com Gilberto, Priscila, Filipe e amigos para a despedida do Chris que voltar\u00e1 para Fran\u00e7a. Experimenta-se uma das especialidades da regi\u00e3o, pelos vistos: pizza de camar\u00e3o com jambu \u2013 essa erva que deixa aquela leve dorm\u00eancia na l\u00edngua.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>29\/08|Dia 12<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> \u2013 Dia de labor&#8230;<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>28\/08|Dia 11 &#8211;<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> O av\u00f4 do Tiago fugiu de Portugal e fez outra fam\u00edlia na ilha de Cotijuba. Ele diz que um dia h\u00e1-de ir a Lisboa saber se tem parentes.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>27\/08|Dia 10 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> Cotijuba. Dormiu na rede dona C\u00e9lia em Cotijuba, embalada pelo rio que se ouve mar; folhas esvoa\u00e7antes a beijar a areia-fina-farinha que parece gemer\u2026 A dona C\u00e9lia disse que viu as duas luas que tanto se andou a falar. A rede embalou de tal forma que s\u00f3 em sonhos a terei visto, provavelmente.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>26\/08|Dia 09 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> Bel\u00e9m \u00e9 ref\u00fagio de trabalho. \u00c9 dia de p\u00f4r a escrita em dia. E o olhar.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>25\/08|Dia 08 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> Amanhece quente. O Filipe Bastos vai levar-nos a conhecer os projectos da Secretaria de Meio Ambiente de Ananindeua. O barco espera-nos para a casa de Farinha-Quilombo&#8230; Para Igarap\u00e9 Grande e para a Ilha de santa Rosa, onde Dona Ambr\u00f3sia, 99 anos, amassa a\u00e7a\u00ed com as m\u00e3os, d\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o sobre as ervas milagrosas e Gilberto, o caboclo relembra um pouco que o av\u00f3 lhe ensinou. &#8220;No tempo do meu av\u00f4 dizia-se&#8221;, ele recorda, sempre que vai contar uma hist\u00f3ria. Mas j\u00e1 n\u00e3o se lembra dos pormenores. &#8220;A tradi\u00e7\u00e3o oral e das gentes daqui est\u00e1-se a perder&#8221;, admite Bastos.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>24\/08|Dia 07 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> Ontem acordei com um barulho no telhado da casa\u00a0 dona Goretti. Impulsiva como sou nestas lides de barulhos estranhos vou logo ver o que se passa, quase de vassoura na m\u00e3o. &#8220;Seu&#8221; Joca disse que era mucura, ou seja isto: http:\/\/www.saudeanimal.com.br\/gamba.htm<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Sa\u00edmos para comer qualquer coisa. Come-se caju e carne na casa de seu Joca. Depois, a caminho de Bel\u00e9m\u2026<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>23\/08|Dia 06 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> Marapanim. Carimb\u00f3. Entrevistas no Grupo Flor do Mangue. Ritmo e dan\u00e7a, onde at\u00e9 o folclore portugu\u00eas fez das suas&#8230;<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>22\/08|Dia 05 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> Hoje: Marapanim. A capital mundial do Carimb\u00f3?<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">\u00c9 l\u00e1 que est\u00e3o os grupos de Carimb\u00f3 mais emblem\u00e1ticos da regi\u00e3o. A dona Goretti, m\u00e3e da Priscila, vai-nos emprestar o alpendre para o sono&#8230; Chegamos para a inaugura\u00e7\u00e3o da Casa do Carimb\u00f3.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; font-weight: normal; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\">\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>21\/08|Dia 04 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> Programa de festas para a tarde: Mercado Ver-o-Peso e Forte dos antepassados, onde se pariu Bel\u00e9m&#8230; H\u00e1 qualquer coisa vento-ba\u00e7o que se cola \u00e0 pele, bem antes da humidade se entranhar. O Amazonas l\u00ea poros para se agarrar aos viajantes&#8230;<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>20\/08|Dia 03 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> Tambor de Mina: j\u00e1 ouviram falar? Tem o Marqu\u00eas de Pombal, Dom Sebasti\u00e3o e tr\u00eas princesas turcas encantadas. Isto \u00e9 sincretismo amaz\u00f3nico.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>19\/09|Dia 02 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> H\u00e1 qualquer coisa em Bel\u00e9m que faz lembrar o Rio de Janeiro. Talvez estas longas ruas com casar\u00f5es coloniais que Portugal por c\u00e1 andou &#8220;fazendo&#8221;&#8230;<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.46cm; line-height: 0.67cm;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><strong>18\/08|Dia 01 \u2013<\/strong><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\"> O resto das malas foi atirado para a mochila. O senhor Salu est\u00e1 l\u00e1 em baixo. Cheira a despedida&#8230;Sampa quase chove!<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif;\"><span style=\"font-weight: normal;\">\u00c2ngulo de 30 graus (?) sobre o rio (cor-de-gesso-ba\u00e7o-barrento) Amazonas e verde texturas ponto-de-cruz do c\u00e9u. SinaisDaGente j\u00e1 em Bel\u00e9m&#8230; Picz. A primeira picada. E isto porque estou de casaco. Sugest\u00e3o do A.: comprar repelente em creme e outro em spray para andar na bolsa&#8230;<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"linkwithin_hook\" id=\"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/?p=780\"><\/div><script>\n<!-- \/\/LinkWithinCodeStart\nvar linkwithin_site_id = 197359;\nvar linkwithin_div_class = \"linkwithin_hook\";\n\/\/LinkWithinCodeEnd -->\n<\/script>\n<script src=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/widget.js\"><\/script>\n<a href=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/pixel.png\" alt=\"Related Posts with Thumbnails\" style=\"border: 0\" \/><\/a><script type=\"text\/javascript\">AKPC_IDS += \"780,\";<\/script>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>10\/10| Dia 54 S\u00e3o 5 horas da manh\u00e3. O avi\u00e3o \u00e9 \u00e0s 7h10: regresso a Bel\u00e9m para passar o C\u00edrio de Nazar\u00e9. Tanto pediram que fossemos, que estivessemos, porque era (\u00e9) uma experi\u00eancia \u00fanica. No final conseguimos estar, gra\u00e7as a C\u00e9sar Neves da Unimed Bel\u00e9m, feito de semente portuguesa, e um dos respons\u00e1veis pela coordena\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n<script>\n<!-- \/\/LinkWithinCodeStart\nvar linkwithin_site_id = 197359;\nvar linkwithin_div_class = \"linkwithin_hook\";\n\/\/LinkWithinCodeEnd -->\n<\/script>\n<script src=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/widget.js\"><\/script>\n<a href=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/pixel.png\" alt=\"Related Posts with Thumbnails\" style=\"border: 0\" \/><\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[45],"tags":[82,83],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/780"}],"collection":[{"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=780"}],"version-history":[{"count":32,"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/780\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":784,"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/780\/revisions\/784"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=780"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=780"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=780"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}