{"id":1451,"date":"2011-06-02T08:42:32","date_gmt":"2011-06-02T11:42:32","guid":{"rendered":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/?p=1451"},"modified":"2011-06-03T12:34:19","modified_gmt":"2011-06-03T15:34:19","slug":"sao-tome-cacau-e-esculturas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/?p=1451","title":{"rendered":"cacau-doce"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/wp-content\/uploads\/sttt.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-1461\" title=\"sttt\" src=\"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/wp-content\/uploads\/sttt.jpg\" alt=\"sttt\" width=\"200\" height=\"120\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>[cr\u00f3nica]<\/strong><\/p>\n<p>Negritude \u00e9 pele grossa, que adensa o calor e suaviza a humidade tropical quando nela assenta. E a pele tem camadas mais porosas, como a dele. De uns alvos dentes, luminosos: contraste com esse manto de derme tropical. Pele chocolate. Alexandre, dos Santos.<\/p>\n<p>Apresenta-se: que \u00e9 tudo que tem para dizer, antes de come\u00e7ar a dizer. Gostamos de antecipar o fim, no princ\u00edpio de come\u00e7armos. E mal acabamos de chegar: o in\u00edcio da ponte ainda est\u00e1 l\u00e1 ao fundo, quando realmente come\u00e7a a acabar a ro\u00e7a Agostinho Neto, nesta S\u00e3o Tom\u00e9 mais a norte de ilha.<\/p>\n<p>Uma filha, Xandinha. Alexandre 21 anos num corpo de homem feito.<\/p>\n<p>&#8211; Ligaste o microfone? Est\u00e1 ligado?<\/p>\n<p>Sim, ligamos. Podemos gravar? Uma conversa. Queres ouvi-la, depois? Um bocadinho? Ver como fica a voz no gravador?<\/p>\n<p>Adensa as palavras e repete-se: &#8220;muito, muito, muito&#8221;. Talvez falasse do sol quente, da brisa impertinente a soprar-lhe no corpo; cruza os bra\u00e7os, endurece o olhar; sacode o ar (&#8220;sim, a vida aqui \u00e9 muito, muito, muito dif\u00edcil; e rico n\u00e3o quer saber). Vai ver se consegue ir na ro\u00e7a, ainda. Vai ver se consegue dobras para ir logo, na discoteca. Dan\u00e7ar funan\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, sou filho de cabo-verdianos, adoro funan\u00e1.<\/p>\n<p>Quer saber-me: tens filhos? Onde moras? Como est\u00e1 l\u00e1 a tua terra?<\/p>\n<p>N\u00e3o acredita em crise. L\u00e1, na minha, terra, acha,\u00a0 ser\u00e1 sempre melhor que a mis\u00e9ria: corpo com sol quente na ro\u00e7a, m\u00e3os endurecidas de enxada, p\u00e9s duros de caminhada. Que europeu sim, vive melhor. Que um dia hei-de ter filhos. Que devo morar num lugar bonito. E o resto Alexandre? Cidade \u00e9 coisa violenta: para a cabe\u00e7a, para a alma, para uma vida acelerada. Queres mesmo saber-me?<\/p>\n<p>-J\u00e1 te vais? Prazer em conhecer-te. At\u00e9 uma pr\u00f3xima, quem sabe.<\/p>\n<p><strong>V\u00e9spera de regressar \u00e0 cidade, ao meu pa\u00eds, para l\u00e1, a minha terra, a da crise. Pequeno-almo\u00e7o:<\/strong><\/p>\n<p>-Tens uma pessoa \u00e0 tua espera na recep\u00e7\u00e3o do hotel.<\/p>\n<p>&#8211; Desculpa ter vindo assim sem avisar. Queria ver-te uma \u00faltima vez. Posso nunca mais te ver. Desculpa-me.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada a desculpar nos genu\u00ednos gestos de ternura. Leves de abnega\u00e7\u00e3o. De princ\u00edpio de vida, quando achamos que ali \u00e9 um fim. O princ\u00edpio de vida \u00e9 quando achamos que ela terminou. Est\u00e1 ali, depois de viv\u00eancia. E algu\u00e9m a esperar-me numa cidade desconhecida, no meu corpo de passagem, itinerante, \u00e9 sempre recome\u00e7o. Sempre, parece, chegamos ao lugar onde nos esperam, em genu\u00ednos gestos, bonitos, leves, abnegados. De gente a gostar de gente s\u00f3 porque sim.<\/p>\n<p>&#8211; Queria dar-te um presente da minha terra. Mereces. Para que lembres. E n\u00e3o esque\u00e7as.<\/p>\n<p>\u00c9 que lembrar e n\u00e3o esquecer s\u00e3o primos muito afastados. Podemos trope\u00e7ar sempre num e falhar outro.<\/p>\n<p>\u00c9 quase noite. J\u00e1 \u00e9 logo. O fim do dia, quando pr\u00edncipio de outro est\u00e1 mesmo, quase, &#8220;muito, muito, muito&#8221; a come\u00e7ar. Come\u00e7amos?<\/p>\n<p>&#8211; Vim da ro\u00e7a de prop\u00f3sito para te entregar. Desculpa ter chegado atrasado. N\u00e3o posso ficar muito tempo. Pedi ao meu puto para ir buscar cacau \u00e0 ro\u00e7a, para ti.\u00a0 E esta escultura fui eu que a fiz. E desculpa, estou envergonhado. Pedi \u00e0 minha irm\u00e3 uma saca. E ela p\u00f4s o cacau nesta de peixe. Estou constrangido.<\/p>\n<p>&#8211; Vieste de prop\u00f3sito entregar-me isto, de longe, sem me conheceres. J\u00e1 te disse e agrade\u00e7o: n\u00e3o se pede desculpa por genu\u00ednos gestos de ternura e afecto. Eu n\u00e3o sei como te retribuir. Muito Obrigada.<\/p>\n<p>&#8211; Um dia, eu sei, irei a Portugal. E vou-te procurar: at\u00e9 ao inferno, ao c\u00e9u, ao fim do mundo, onde estiveres. Mereces.<\/p>\n<p><strong><em>Vanessa Rodrigues<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>LER MAIS SOBRE <a href=\"http:\/\/www.almadeviajante.com\/viagens\/saotome-principe\/sao-tome.php\">S\u00c3O TOM\u00c9 E PR\u00cdNCIPE NA ALMA DE\u00a0 VIAJANTE<\/a><br \/>\n<\/em><\/strong><\/p>\n<div class=\"linkwithin_hook\" id=\"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/?p=1451\"><\/div><script>\n<!-- \/\/LinkWithinCodeStart\nvar linkwithin_site_id = 197359;\nvar linkwithin_div_class = \"linkwithin_hook\";\n\/\/LinkWithinCodeEnd -->\n<\/script>\n<script src=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/widget.js\"><\/script>\n<a href=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/pixel.png\" alt=\"Related Posts with Thumbnails\" style=\"border: 0\" \/><\/a><script type=\"text\/javascript\">AKPC_IDS += \"1451,\";<\/script>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alexandre dos Santos tem corpo de homem e idade de quem come\u00e7a a descobrir a vida. Uma filha. O cacau \u00e9 teu, da minha ro\u00e7a, com as m\u00e3os a esculpir peixes de madeira, para que leves um peda\u00e7o da minha terra<\/p>\n<script>\n<!-- \/\/LinkWithinCodeStart\nvar linkwithin_site_id = 197359;\nvar linkwithin_div_class = \"linkwithin_hook\";\n\/\/LinkWithinCodeEnd -->\n<\/script>\n<script src=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/widget.js\"><\/script>\n<a href=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/pixel.png\" alt=\"Related Posts with Thumbnails\" style=\"border: 0\" \/><\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[285,8],"tags":[283,282],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1451"}],"collection":[{"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1451"}],"version-history":[{"count":11,"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1451\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1478,"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1451\/revisions\/1478"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1451"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1451"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1451"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}