{"id":1068,"date":"2010-01-05T11:03:49","date_gmt":"2010-01-05T14:03:49","guid":{"rendered":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/?p=1068"},"modified":"2010-01-05T11:05:04","modified_gmt":"2010-01-05T14:05:04","slug":"carta-a-saba","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/?p=1068","title":{"rendered":"Carta a Sab\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><span id=\"ctl00_ctl00_bcr_maincontent_ThisContent\"> <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/dn.sapo.pt\/inicio\/globo\/interior.aspx?content_id=1456496&amp;seccao=CPLP\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1070 alignleft\" title=\"isolado\" src=\"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/wp-content\/uploads\/isolado.jpg\" alt=\"isolado\" width=\"200\" height=\"120\" \/>Publicado no DN, 27 Dez&#8217; 2009<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por Vanessa Rodrigues, em Manaus<\/strong><\/p>\n<h5>(<em>Uma cr\u00f3nica sobre um poss\u00edvel fim do mundo, dos mist\u00e9rios do tempo, da riqueza da serenidade, das pequenas coisas, do isolamento, desse modo de vida, com tanto Rio-Mar a sufocar ou a ser vida das gentes de uma imensa e tanta Amaz\u00f3nia)<\/em><\/h5>\n<h4><strong> <\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabe-se pouco porque \u00e9 que vivias assim, longe de todos, como se o mundo n\u00e3o te interessasse. Interessava? Se mais gente soubesse da tua import\u00e2ncia, tinhas raz\u00e3o, n\u00e3o te deixaria l\u00e1 ficar, sozinho, a sofrer as dores da idade, e sem poderes contar sobre as rugas que o tempo te trouxera, ano ap\u00f3s ano. Querias contar? Porque foste para l\u00e1? Sei que ningu\u00e9m sabe, e que, se soubessem, n\u00e3o te deixariam em paz. Iriam querer ouvir as tuas hist\u00f3rias: as do \u00fanico morador da Bol\u00edvia, no Alto Amazonas, num remoto Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falavam tanto de ti &#8220;rio abaixo&#8221;. Tu, l\u00e1 sozinho, perto do rio, no teu casulo de madeira, tecido com as tuas m\u00e3os &#8211; j\u00e1 nem te lembravas h\u00e1 quantos Ver\u00f5es. Ningu\u00e9m acredita, se o contar, que os teus vizinhos mais pr\u00f3ximos ficavam a um dia de viagem, de lancha. Muitos que te visitavam tinham de esperar horas (quem sabe dias) para te encontrar. Talvez fosse melhor assim, para que n\u00e3o te chateassem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o querias saber de mais nada, j\u00e1 que o teu mundo era mais perto e intenso que este de onde te escrevo. Dizem que a\u00ed o rio \u00e9 como sangue do parentesco: une os ribeirinhos numa s\u00f3 fam\u00edlia. Contaram-me que s\u00f3 querias saber das cheias e secas. Quando vinham, j\u00e1 sabias se haveria peixe ou quando devias p\u00f4r a espingarda \u00e0s costas e ficar horas na selva para garantir os comes dos pr\u00f3ximos dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m acredita que, em pleno s\u00e9culo XXI vivias sem frigor\u00edfico, sem luz, sem cama, sem fog\u00e3o a g\u00e1s, sem nada que este nosso mundo acelerado j\u00e1 n\u00e3o dispensa, sem m\u00e9dicos por perto para te amparar quando sentisses dor, e que at\u00e9 essa atenuavas, com os saberes da selva, a &#8220;tua amiga&#8221;. E agora foste, h\u00e1 meses, j\u00e1 velhinho, porque quando sentiste dor ningu\u00e9m estava l\u00e1 para te dizer o que era.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A selva tamb\u00e9m achou que era melhor dar-te descanso das mezinhas que sabiamente colectavas. Afinal, j\u00e1 a conhecias demasiado, e ela precisa guardar determinados segredos, n\u00e3o v\u00e1 o mundo, aquele que n\u00e3o quiseste conhecer, de onde te escrevo, invadi-la para a devastar, como andam a fazer mais perto da cidade, em toda a Amaz\u00f3nia, a dias de dist\u00e2ncia de ti.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, Sab\u00e1: \u00e9 verdade o que se conta? Que nos \u00faltimos anos de vida tinhas algu\u00e9m para te enxugar as l\u00e1grimas (choravas?) e para te embalar a rede quando sonhavas (o que imaginavas?). Que havia uma mulher, a &#8220;Cigana&#8221; que ningu\u00e9m via? O povo, &#8220;rio abaixo&#8221; conta que n\u00e3o estavas &#8220;muito bom da cabe\u00e7a&#8221;. E que a &#8220;Cigana&#8221; n\u00e3o existia; que foi uma inven\u00e7\u00e3o da (senil) idade que a solid\u00e3o te trouxe por n\u00e3o aguentares tanto sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sab\u00e1, eu sei que achavas que ningu\u00e9m ia contar a tua hist\u00f3ria. E que ela, afinal, n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o importante, como talvez achasses. Tamb\u00e9m sei que nunca saber\u00e1s que a soube por acaso, j\u00e1 depois de teres morrido, e que a resolvi contar para que saibam que jeito \u00e9 esse de morar na Amaz\u00f3nia, isolado, sozinho. S\u00f3 que o meu mundo, esse acelerado, perdoa-me, quer saber de ti, para n\u00e3o se esquecer da import\u00e2ncia do teu mundo.<\/p>\n<div class=\"linkwithin_hook\" id=\"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/?p=1068\"><\/div><script>\n<!-- \/\/LinkWithinCodeStart\nvar linkwithin_site_id = 197359;\nvar linkwithin_div_class = \"linkwithin_hook\";\n\/\/LinkWithinCodeEnd -->\n<\/script>\n<script src=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/widget.js\"><\/script>\n<a href=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/pixel.png\" alt=\"Related Posts with Thumbnails\" style=\"border: 0\" \/><\/a><script type=\"text\/javascript\">AKPC_IDS += \"1068,\";<\/script>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado no DN, 27 Dez&#8217; 2009 Por Vanessa Rodrigues, em Manaus (Uma cr\u00f3nica sobre um poss\u00edvel fim do mundo, dos mist\u00e9rios do tempo, da riqueza da serenidade, das pequenas coisas, do isolamento, desse modo de vida, com tanto Rio-Mar a sufocar ou a ser vida das gentes de uma imensa e tanta Amaz\u00f3nia) Sabe-se pouco [&hellip;]<\/p>\n<script>\n<!-- \/\/LinkWithinCodeStart\nvar linkwithin_site_id = 197359;\nvar linkwithin_div_class = \"linkwithin_hook\";\n\/\/LinkWithinCodeEnd -->\n<\/script>\n<script src=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/widget.js\"><\/script>\n<a href=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.linkwithin.com\/pixel.png\" alt=\"Related Posts with Thumbnails\" style=\"border: 0\" \/><\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[180,183,185,179,184,182,181],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1068"}],"collection":[{"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1068"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1068\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1074,"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1068\/revisions\/1074"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1068"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1068"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/sinaisdagente.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1068"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}